Ex-técnico do Botafogo. Crédito: Marivaldo Oliveira/Código19/Gazeta Press
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Jair Ventura fala sobre padrões de jogo e revela treinos em sala devido ao calendário brasileiro

Daniel Dutra
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Em entrevista para a PressFut, Jair Ventura fez uma leitura de sua carreira e analisou temas como padrões de jogo e o calendário do futebol brasileiro. Atualmente sem clube, o treinador vem aproveitando o tempo para se atualizar com as novas tendências do futebol mundial.


Como sugere o nome, Jair Ventura é filho de Jairzinho, eterno furacão da Copa de 70. Contudo, construiu uma carreira independente. Primeiro, tentou como jogador, mas com resultados abaixo da expectativa, se aposentou e foi estudar. Como técnico, foi eleito a revelação do Campeonato Brasileiro logo em sua estreia como profissional, em 2016, pelo Botafogo.

Clique na matéria abaixo para ler a segunda parte da entrevista:

Jair Ventura esquece polêmicas e se atualiza em busca de novos desafios

De lá para cá, obteve bons resultados ainda no Botafogo, em 2017, e comandou o Santos e o Corinthians no ano seguinte, disputando a final da Copa do Brasil e sendo vice-campeão. Atualmente, Jair está sem clube, aproveitando a pausa para se atualizar.

Como a entrevista possui bastante conteúdo, dividimos ela em duas partes. Fique então com o primeiro capítulo:

  1. Ao encerrar sua carreira como jogador precocemente, você tomou a decisão de estudar. Mas antes de virar jogador, já pensava em um futuro como técnico?

Já. Na verdade, desde a época que eu ainda jogava, eu já era apaixonado pela parte tática, já era apaixonado pela parte de estratégia, em ler o jogo, entender o jogo. Saber o que estava acontecendo durante a partida. Eu já me colocava no lugar do treinador, de repente o que eu faria no intervalo, o que eu faria já no decorrer do jogo, de mudanças, enfim, já me via sim.

Assim, só não sabia se seria um dia, mas eu sempre fui um apaixonado por essa parte tática, de estratégia. Então é isso que eu pensava desde a época que eu jogava sim.

Jair Ventura jogador. Crédito: Acervo/Marcelão Santos
Jair Ventura sendo treinado pelo pai, Jairzinho, na época de jogador. Crédito: Acervo/Marcelão Santos
  1. Sua carreira de jogador foi muito curta, sendo encerrada aos 26 anos. Qual foi o maior motivo: a falta de técnica, lesões, ou carregar o nome de seu pai?

“Eu não sou um cara de transferir responsabilidade não.”

Eu não sou um cara de transferir responsabilidade não. Foi um pouquinho de cada. Seria injusto eu falar uma coisa ou outra, pesou um pouquinho de cada. Mas eu acho que o que mais pesou foi eu ser um cara que me cobro muito. Eu estava muito longe da minha expectativa, que era jogar em alto nível, em um grande clube, chegar de repente à Seleção Brasileira. Vi que eu estava longe da excelência e resolvi parar para não ser só mais um e hoje tenho a certeza que foi a atitude certa, apesar de sentir muita saudade.

Mas deu para começar uma carreira muito jovem, a carreira de comissão técnica, como preparador, auxiliar, análise de desempenho, enfim, tudo que eu fiz até virar treinador profissional. Inclusive esse ano eu completei 10 anos que eu fiz o meu primeiro jogo como treinador profissional, ainda com 30 anos. Então foi muito bom, fico bem por ter começado cedo e ter vivenciado muito cedo, então a experiência ajuda essa junção com a parte teórica. Então tenho certeza que foi a atitude certa.

  1. Você trabalhou com diversos treinadores enquanto auxiliar e treinador de base. Entre todos os técnicos, qual foi o que você mais conseguiu tirar proveito?

Olha, eu sou um privilegiado de ter trabalhado com tantos bons treinadores. Então é difícil você citar um ou outro, porque seria uma injustiça. Hoje eu tenho com certeza muita coisa de todos eles. Lógico que eu já tenho minha metodologia, tenho aquilo que eu penso, mas eu aprendi demais, extraí demais de todos eles. Com certeza alguns, umas coisas a mais que as outras, por característica, cada um tem um perfil, mas foi um grande aprendizado.

Eu tenho certeza que se eu não ficasse esses nove anos como auxiliar, eu não estaria pronto quando eu assumi o Botafogo em 2016, como meu primeiro trabalho efetivado. Para mim foi muito bom essa vivência de ter trabalhado com grandes treinadores e grandes pessoas. Eu me orgulho demais de ser amigo de todos eles até hoje.

Jair Ventura pelo Botafogo em 2016. Crédito: Vitor Silva/SS Press/Botafogo

Jair Ventura foi efetivado pelo Botafogo em 2016. Crédito: Vitor Silva/SS Press/Botafogo

  1. Na visão de um treinador, o que determina a escolha de um padrão de jogo e o esquema tático para um elenco?

Olha, falando da minha visão, pois o legal da profissão é a diversidade, cada um enxerga de uma maneira e o futebol te dá esse direito. Lógico que nós temos a nossa maneira, que a gente acha ideal, mas nós temos que avaliar a cultura do clube, a característica do elenco, e dentro desse elenco, desse clube, respeitando tudo isso, você tem que implementar aquilo que você acredita também.

Então eu acho que é uma junção. Eu tenho trabalhos distintos. No Botafogo eu tive pouca posse de bola, mas apesar disso, só 25% dos gols eram feitos em contra-ataque, ou seja, em transição. E no Santos um trabalho com mais posse de bola, com 78% dos jogos com mais posse de bola, contra 45% no Botafogo. Então você vê uma mudança de trabalho, de modelo de jogo, mas com objetivos alcançados da mesma maneira. A gente se classificou em primeiro na Libertadores com uma rodada de antecedência no Botafogo. E no Santos a mesma coisa, mas com outro modelo de jogo. Então mostra que nós somos mutáveis, podemos trabalhar de maneiras diferentes de acordo com a característica do clube e principalmente a do seu elenco.

  1. Dentro de um calendário apertado, onde as equipes jogam mais de 50 vezes no ano, quais sãos as prioridades para a comissão técnica, no que diz respeito a treinamentos para manter o padrão de jogo e a alta intensidade visando o êxito nos jogos?

Olha, você pegou até leve. Eu lembro que no Botafogo em 2017 nós fizemos 73 jogos. Ou seja, você praticamente não treina. Eu gosto muito de usar os treinos em sala. Eu levo os jogadores para a sala, onde a gente mostra diversos vídeos, principalmente quando eles estão nas 48 horas ainda, na parte de regenerativo, onde a gente mostra as coisas positivas e coisas a melhorar.

E já tem estudos que mostram a importância disso. De você poder mostrar o vídeo com áudio. Associado você tem a assimilação muito melhor do que só falar ou só mostrar. Então já que a gente não pode muitas vezes ir para o campo treinar, pois já cheguei a jogar 3 jogos em uma semana (segunda, quinta e domingo), a gente usa muito esse método, que é o treino em sala que eu chamo. Então é um facilitador para a nossa vida nesse calendário que nós temos. É uma das maneiras.

Jair, Botafogo. Crédito: Vitor Silva/SS Press/Botafogo
A equipe de Jair no Botafogo ficou marcada por se destacar fisicamente dentro de campo. Crédito: Vitor Silva/SS Press/Botafogo
  1. Em 2016 o Botafogo lutava contra o rebaixamento e precisava de um técnico após a saída de Ricardo Gomes. O que passou na sua cabeça ao aceitar o convite para ser técnico em um momento tão delicado? Pediu conselhos ou foi uma decisão pessoal?

“Foi a decisão mais difícil da minha vida.”

Olha, certeza que foi a decisão mais difícil da minha vida. A gente sempre se prepara, eu costumo dizer para os jovens treinadores que estejam preparados porque a gente não sabe quando vem a oportunidade. Por muitas vezes a oportunidade, principalmente a do interino, vem sempre num momento delicado.

No meu primeiro jogo em 2010, quando eu fui interino a gente já tinha sofrido de 6 a 0 contra o Vasco, no jogo anterior. Em 2015 eu fiz mais 3 jogos como interino numa saída que a gente sai na Copa do Brasil e eu acabo assumindo antes da chegada do Ricardo. E nessa situação que o Ricardo acaba aceitando o convite para ir para o São Paulo e o meu presidente me liga.

Então não teve como eu pedir conselho, foi tudo muito rápido. O presidente me ligou a noite, dizendo que estava precisando de um treinador. E aí ele falou: “e aí, eu tô falando com o meu treinador”. Eu falei “como assim, presidente?”, ele respondeu “tô querendo botar você de treinador”. Pensei rápido, analisando as circunstâncias, a gente vinha de uma Série B, com um orçamento enxuto, mas era a minha oportunidade e eu falei: “presidente, é tudo que eu mais quero na minha vida”. Ele concordou e disse que ia me anunciar como treinador. Perguntei como assim e ele disse que eu estava efetivado e ia ligar para a imprensa para anunciar. Foi assim.

Logo depois, no meu primeiro jogo, na estreia contra o São Paulo no Morumbi, estávamos em 17°, a gente vence, resumindo, demos uma arrancada. Esse jogo contra o São Paulo foi o primeiro jogo do returno. A gente sai de 17° e vai para 5°. Primeira vez na história do Brasileirão que uma equipe que entra no Z4 no returno termina na libertadores. Então foi mais ou menos essa a história.

  1. A classificação para a Libertadores naquele mesmo ano, saindo da zona de rebaixamento, foi algo que nunca tinha acontecido com nenhum time na história do Brasileirão. O que você acha que fez no ambiente e no trabalho para as coisas mudarem da água para o vinho em tão pouco tempo?

Lógico que foi um feito inédito, muito difícil. Quando a gente fala a palavra inédito a gente já sabe que é difícil e não vai ser feito sempre. Mas não mudou da água para o vinho, não vejo isso não. Porque eu como auxiliar, eu sempre falei para o meu treinador, o que eu pensava. Eu nunca omitia as minhas opiniões porque você ser auxiliar e falar sempre amém para o seu treinador, eu acho que você não serve como auxiliar. Eu sempre falava que se fosse eu, faria desse jeito, dava meu palpites no intervalo, nas escalações, como o auxiliar faz. Mas a decisão final é sempre a do Ricardo.

E eu não mudei tudo, a gente deu sequência a um trabalho que estava sendo bem feito. O momento era delicado, mas era um trabalho de um treinador experiente, que é o Ricardo, que é meu amigo, aprendi demais com ele, um ser humano fantástico. Eu vejo que rolou uma sinergia. Os jogadores com certeza são os protagonistas dessa arrancada, sem eles a gente não conseguiria. Eles abraçaram uma ideia, a gente implementou alguma coisa gradativa, não tem nem como ser diferente, porque não tem tempo para treinar como eu falei. A gente foi implementando pouco a pouco e dando sequência ao trabalho que não era ruim do Ricardo. Estava em um momento ruim, mas não era ruim e a gente consegue esse feito inédito graças aos jogadores que nos abraçaram.

Botafogo 2017. Crédito: Vitor Silva/SS Press/Botafogo
A última grande temporada do Botafogo foi em 2017. Crédito: Vitor Silva/SS Press/Botafogo
  1. No ano seguinte o Botafogo fez uma ótima Libertadores, sendo o único time a eliminar 5 campeões da competição em uma mesma edição. Depois da eliminação para o Grêmio, que foi campeão posteriormente, ficou um gostinho de que o alvinegro também poderia ter sido campeão? Ou acha que teria mais dificuldades com os adversários seguintes?

Olha, verdade, outro feito inédito em dois anos consecutivos. E agora em uma competição que os times priorizam, que é a Libertadores. Vencemos 5 campeões, classificamos em primeiro, ganhamos nas oitavas do Nacional do Uruguai na casa deles e pegamos o Grêmio em dois jogos muito equilibrados. O do Rio foi muito igual e o de Porto Alegre o Botafogo foi melhor, isso palavras ditas pelo próprio Renato e os jogadores.

Eu não tinha assistido esse jogo até agora na pandemia. Passou na televisão, um amigo treinador falou que estava passando o meu Botafogo e eu fui assistir. Realmente a gente foi superior no jogo, mas são coisas do futebol. Agora, falar o futuro é muito complicado, a gente não tem bola de cristal para saber como seria os outros jogos. Porque você vê esse jogo, a gente joga bem e perde, tem jogo que a gente joga mal e ganha, enfim, não dá para saber o que aconteceria. Mas dali, tinham duas grandes equipes, dois grandes jogos, e dali saiu o campeão. Então, deixa a entender alguma coisa aí também.

  1. Entre 2016 e 2017, qual foi o ano mais especial para você?

Excelente pergunta, eu mesmo já me perguntei isso diversas vezes. 2016 foi uma situação para eu aparecer com o meu trabalho, porque se eu sou rebaixado, certamente eu não estaria te dando essas respostas hoje, o treinador vive de resultado. E 2017 foi uma afirmação. Você ficar um ano e meio, fazer 99 jogos, disputar uma Libertadores do jeito que a gente disputou, chegar numa semifinal de Copa do Brasil, enfim, ter um ano consolidado foi muito bom para mim também.

Mas difícil saber qual foi o melhor, foram dois grandes momentos e guardo os dois anos com muito carinho. Não sei te responder colocando em primeiro ou segundo, levo com admiração e carinho. Os dois anos foram muito importantes para mim e estão guardados no meu coração.

Jair Ventura e Rodrygo. Crédito: Reprodução
Jair participou do lançamento de Rodrygo para o futebol profissional. Crédito: Reprodução
  1. Nesse período do Botafogo, você levou muitos jogadores da base para o profissional e eles foram essenciais nas campanhas do clube. Quais são os fatores que indicam quando o jogador está pronto para ser inserido no contexto profissional?

A respeito dos jogadores da base, eu trabalhei muitos anos na base. Trabalhei 3 anos na Seleção Brasileira Sub-15, Sub-17 e Sub-20, disputei o Sul-americano Sub-17 onde a gente foi campeão, disputei um Mundial Sub-17 e um Sul-americano Sub-20 entre outras competições como Copa Nike, enfim. E eu conheço demais, foi uma coisa muito boa ter vivenciado a base, fui treinador do Botafogo em 2012 no Sub-20, então assim, uma coisa que eu levo nos meus trabalhos é trabalhar com jovens.

A gente lançou diversos jogadores no Botafogo, no próprio Santos. Na verdade, a gente não revela, a gente lança. Quem revela é o clube e todos os professores que eles tiveram desde jovens. Lançamos o Rodrygo, que tinha feito jogos com baixa minutagem no ano anterior, mas ele alcançou a titularidade e fez o seu primeiro gol, sendo o jogador brasileiro mais jovem a fazer gol na Libertadores com a gente. Em 2018 no Santos, o nosso time era o time com o maior número de jogadores inscritos com idade de Sub-20, até de juvenil, com jogadores de 16/17 anos como o Rodrygo e o Yuri Alberto. Nossa equipe era a mais jovem da Libertadores. A gente lançou o Bambu, que parece que acabou de ser vendido do Athletico Paranaense para a França. Também pegamos o Pituca no Santos B, que não tinha feito nenhum jogo no Santos principal.

Então acho que isso, modesta a parte são alguns fatores que os treinadores têm, a percepção. Os treinadores têm que saber quando os jogadores estão prontos, a hora de lançar. Parece que é só chegar e dar a camisa, e não é assim. Tem que saber o jogo, o momento do jogo. Então é de maneira gradativa até ele alcançar a titularidade. Como foi no Botafogo com o Igor Rabello, o Marcelo, Matheus Fernandes. Nos meus dois times, no Botafogo e no Santos, teve jogadores titulares de 17 anos. O Matheus Fernandes foi para o Barcelona e o Rodrygo foi para o Real Madrid. Então é o trabalho do treinador saber a hora de lançar e como lançar.

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*Entrevista feita por Daniel Dutra com participação de Thiago Alves

Daniel Dutra

Jornalista em formação e apaixonado por esportes. Juntei essas duas paixões para produzir conteúdo e valorizar a comunicação criando um portal para levar informação e gerar oportunidades.
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