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Contarei do sujeito que tanto vagueou pelo Rio de Janeiro para descobrir uma curiosa verdade: a paixão por um clube nunca aprendeu matemática.
Saiu cedo. Pegou o trem lotado, ouviu o inevitável “olha o amendoim da Santa Helena”, desceu na Central, atravessou plataformas, passou por bares e esquinas onde se discutia futebol com a mesma intensidade com que outros discutem política.
Perguntava apenas uma coisa. Quanto custa amar um clube?
Uns respondiam o preço do ingresso. Outros lembravam da cerveja, da camisa oficial, da assinatura do streaming. Houve quem falasse do transporte. Mas ninguém respondia aquilo que ele realmente queria saber.
Depois de muito andar pelo centro, na Rua do Ouvidor, entregaram-lhe um livreto. Nele estava escrito: “Opinion Box revela que 83% dos brasileiros torcem para algum clube e que 59% acompanham futebol com frequência”.
O sujeito sorriu.
Não era novidade. Bastava caminhar algumas quadras para perceber que o futebol ainda é um idioma nacional. Mas bastou virar a página para descobrir que 23% dos brasileiros admitem que se endividariam para acompanhar uma final ou uma fase decisiva do clube do coração. Foi então que compreendeu que a paixão não conhece limite de crédito.
Pesquisa nada romântica
Continuou a leitura. Agora estava pela região do Porto Maravilha. Descobriu que 41% dos torcedores já fizeram gastos que não estavam previstos no orçamento apenas para acompanhar seu time.
A pesquisa tornava-se cada vez menos romântica. Revelava que 17% dos brasileiros já deixaram de pagar contas básicas, como água, luz ou internet, para gastar com futebol. E mais 15% daqueles que já estão endividados continuam consumindo entretenimento esportivo regularmente. O sujeito fechou o relatório por um instante. Percebeu que estava na Praça XV, e ao ver dezenas de araras com camisa de futebol na feira, pensou que há brasileiros capazes de suportar uma semana inteira sem internet, mas incapazes de suportar uma semifinal longe da arquibancada.
Quis descobrir para onde todo esse dinheiro ia. A resposta veio em forma de porcentagens. Comidas e bebidas lideram os gastos, consumindo 51% das despesas ligadas ao futebol. Produtos oficiais aparecem logo atrás, com 23%. Festas e eventos presenciais representam 20%, enquanto 19% dos torcedores mantêm assinaturas de canais esportivos e plataformas de streaming.
O sujeito caminhou pela multidão que se espremia na feira da Praça XV, pegou uma das camisas da arara nas mãos e percebeu que vestir um clube havia deixado de ser apenas um gesto de pertencimento. Tornara-se também uma decisão financeira.
Curioso
Ao seguir a leitura, encontrou outro dado curioso. Setenta e três por cento dos torcedores afirmam gastar mais de R$ 100 quando os campeonatos entram em fases decisivas. E 43% pretendem desembolsar mais de R$ 200 para acompanhar eventos relacionados ao futebol ao longo do ano. Descobriu, enfim, que finais possuem um curioso efeito sobre o bolso, quanto mais perto do título, mais distante fica o equilíbrio financeiro.
Foi então que chegou na seção que falava das apostas. 56% dos brasileiros cogitam participar de bolões ou apostas esportivas, percentual que sobe para 69% entre jovens de 18 a 24 anos. O sujeito imaginou que essa talvez seja uma maneira do torcedor lucrar ao menos uma vez depois de tanto gastar com uma paixão.
No fim do caminho parou em frente a Cafeteria Colombo da Gonçalves Dias e encontrou o educador financeiro Guilherme Casagrande. O especialista explicou que o futebol se transformou numa das maiores indústrias de consumo emocional do país e que o verdadeiro desafio do torcedor é compreender que o clube do coração pertence ao campo do lazer. O lazer, advertiu, jamais deveria ocupar o lugar das contas básicas da casa.
O sujeito agradeceu a conversa e voltou a caminhar em direção a Presidente Vargas. Passou por um bar onde um pai dividia uma porção de frango a passarinho com o filho enquanto esperavam o jogo começar. Mais adiante, viu um rapaz parcelando uma camisa oficial. Em outra esquina, um grupo discutia qual streaming transmitiria a próxima rodada. Ninguém falava de dinheiro. Todos falavam de futebol.
Na última página o sujeito viu a logo da Creditas e um informativo que dizia:
Opinion Box: Creditas
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