Gustavo Gómez e paraguaios comemoram classificação contra Alemanha na Copa do Mundo de Futebol • Getty Images via Divulgação/Fifa
Crônicas, Futebol, Futebol de Seleções

¡Sí, se puede! Enquanto a bola continuar redonda, o futebol vai continuar imprevisível O que os jogos nos ensinam, é que o futebol detesta a soberba e a previsibilidade

Alemanha x Paraguai

Há uma tese curiosa segundo a qual o futebol não nasceu na Inglaterra, mas no Paraguai. O documentário Los Guaraníes Inventaron el Fútbol percorre esse caminho, misturando história e paixão.

Não ouso dizer se a tese é verdadeira.

Mas ontem o futebol fez questão de contar uma bela piada.

A Alemanha, uma das maiores potências da história das Copas, tombou diante do Paraguai.

Foi como se o próprio futebol cochichasse aos ouvidos dos arrogantes

— Talvez vocês nunca tenham entendido de quem era este jogo.

Nos últimos dias, muito se falou sobre partidas “desinteressantes”, sobre seleções pequenas e sobre o suposto abismo que separaria a Europa do restante do mundo.

Pois bem.

O futebol detesta a soberba.

Tem verdadeira alergia a quem acredita que a história entra em campo para vencer sozinha.

Ontem, uma camisa pesada encontrou um adversário que não carregava o mesmo prestígio, mas levava consigo algo infinitamente mais perigoso.

A coragem. E quando a coragem resolve enfrentar a tradição, nem sempre a tradição sobrevive.

Talvez o futebol não tenha nascido no Paraguai. Mas, por noventa minutos, fez questão de voltar para lá.

Brasil x Japão

— Eu teria tirado o Casemiro no intervalo.

— Não teria colocado o Martinelli.

— É por isso que o Ancelotti tem cinco Champions League.

— E eu acordo amanhã às seis da manhã para trabalhar.

Ontem, frases como essa inundaram a internet.

Houve também os pessimistas que diziam:

— Só não viu que o Brasil iria ser eliminado pro Japão, quem assistiu os jogos do Brasil nos últimos 24 anos de olhos vendados e ouvidos tapados.

O torcedor de futebol tem uma teimosa mania de achar que sabe mais do que realmente sabe. Julga substituições antes que produzam efeito, condena esquemas antes que amadureçam e decreta derrotas quando o relógio ainda nem chegou aos noventa minutos.

O futebol, porém, jamais aceitou ser tratado como algo previsível. Nem como planilha. Nem como gráfico. Ontem ele fez questão de lembrar isso.

Não escolheu Vinícius para ser o protagonista. Não escolheu os gols de Matheus Cunha. Nem a estrela de Endrick.

O futebol resolveu exaltar aquele que raramente aparece na fotografia da comemoração. A mente.

O homem que enxerga o jogo antes que ele aconteça. O arquiteto das jogadas, das ideias e das substituições. Carlo Ancelotti.

Enquanto milhões discutiam o que fariam diante da televisão, Carletto fazia aquilo que o tornou um dos maiores treinadores da história, escutava o campo.

A quem acompanhou o Real Madrid dos últimos anos, a vitória de ontem pouco surpreendeu.

Quantas vezes julgamos equivocadas as substituições do velho italiano? Quantas vezes pensamos que o adversário tinha o controle da partida?

E, quando o apito final soava, lá estava o Real Madrid. Vencedor. Há treinadores que comandam um time. Ancelotti governa o caos. E entende do esporte da bola nos pés como ninguém.

Ao pessimista lhe digo o futebol continua sendo um retângulo verde, vinte e dois homens e uma bola. E enquanto a bola continuar redonda, o futebol será imprevisível.

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