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Alemanha x Paraguai
Há uma tese curiosa segundo a qual o futebol não nasceu na Inglaterra, mas no Paraguai. O documentário Los Guaraníes Inventaron el Fútbol percorre esse caminho, misturando história e paixão.
Não ouso dizer se a tese é verdadeira.
Mas ontem o futebol fez questão de contar uma bela piada.
A Alemanha, uma das maiores potências da história das Copas, tombou diante do Paraguai.
Foi como se o próprio futebol cochichasse aos ouvidos dos arrogantes
— Talvez vocês nunca tenham entendido de quem era este jogo.
Nos últimos dias, muito se falou sobre partidas “desinteressantes”, sobre seleções pequenas e sobre o suposto abismo que separaria a Europa do restante do mundo.
Pois bem.
O futebol detesta a soberba.
Tem verdadeira alergia a quem acredita que a história entra em campo para vencer sozinha.
Ontem, uma camisa pesada encontrou um adversário que não carregava o mesmo prestígio, mas levava consigo algo infinitamente mais perigoso.
A coragem. E quando a coragem resolve enfrentar a tradição, nem sempre a tradição sobrevive.
Talvez o futebol não tenha nascido no Paraguai. Mas, por noventa minutos, fez questão de voltar para lá.
Brasil x Japão
— Eu teria tirado o Casemiro no intervalo.
— Não teria colocado o Martinelli.
— É por isso que o Ancelotti tem cinco Champions League.
— E eu acordo amanhã às seis da manhã para trabalhar.
Ontem, frases como essa inundaram a internet.
Houve também os pessimistas que diziam:
— Só não viu que o Brasil iria ser eliminado pro Japão, quem assistiu os jogos do Brasil nos últimos 24 anos de olhos vendados e ouvidos tapados.
O torcedor de futebol tem uma teimosa mania de achar que sabe mais do que realmente sabe. Julga substituições antes que produzam efeito, condena esquemas antes que amadureçam e decreta derrotas quando o relógio ainda nem chegou aos noventa minutos.
O futebol, porém, jamais aceitou ser tratado como algo previsível. Nem como planilha. Nem como gráfico. Ontem ele fez questão de lembrar isso.
Não escolheu Vinícius para ser o protagonista. Não escolheu os gols de Matheus Cunha. Nem a estrela de Endrick.
O futebol resolveu exaltar aquele que raramente aparece na fotografia da comemoração. A mente.
O homem que enxerga o jogo antes que ele aconteça. O arquiteto das jogadas, das ideias e das substituições. Carlo Ancelotti.
Enquanto milhões discutiam o que fariam diante da televisão, Carletto fazia aquilo que o tornou um dos maiores treinadores da história, escutava o campo.
A quem acompanhou o Real Madrid dos últimos anos, a vitória de ontem pouco surpreendeu.
Quantas vezes julgamos equivocadas as substituições do velho italiano? Quantas vezes pensamos que o adversário tinha o controle da partida?
E, quando o apito final soava, lá estava o Real Madrid. Vencedor. Há treinadores que comandam um time. Ancelotti governa o caos. E entende do esporte da bola nos pés como ninguém.
Ao pessimista lhe digo o futebol continua sendo um retângulo verde, vinte e dois homens e uma bola. E enquanto a bola continuar redonda, o futebol será imprevisível.






