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Me enganei a propor uma relação entre o poodle e o futebol brasileiro, ao menos o poodle, permanece ao lado do dono quando a casa desaba. O futebol brasileiro, não.
No futebol brasileiro, o herói tem prazo de validade. Dura exatos noventa minutos.
Se vence, é gênio. Se perde, transforma-se num estorvo.
Vinícius Júnior, que há poucos dias era o protagonista da Seleção, terminou o jogo tratado como inútil. Bruno Guimarães, apontado como o cérebro da equipe, virou bagre. Endrick, que ontem era o menino destinado ao estrelato, já foi promovido a centroavante superestimado. A sentença é sempre a mesma.
Ontem serviam, hoje, já não prestam. O nosso futebol, não apoia jogadores.
Apoia placares.
Ama a vitória e apenas a vitória. Todo o resto lhe parece imperdoável. Não admite o tropeço, não compreende o processo e, sobretudo, desaprendeu a sofrer.
O curioso é que exige dos atletas uma fidelidade que ele próprio já não oferece.
Cobra que jamais abandonem a camisa.
Mas abandona os seus ao primeiro revés.
Depois pergunta por que a Seleção entra em campo carregando um peso invisível. Jogadores que sabem que um erro basta para deixar de serem ídolos e se tornarem culpados.
Vos digo, talvez esse peso não venha da camisa. Venha da arquibancada.
Derrota no Brasil custa caro
Arrisco dizer que, se a Noruega fosse eliminada, seus jogadores seriam recebidos com aplausos e gratidão por terem levado a nação tão longe.
No Brasil, não.
Aqui, a derrota costuma apagar tudo o que veio antes dela. Uma arquibancada sem identidade produz um campo sem identificação.
E um campo sem identificação jamais formará uma seleção que se sinta verdadeiramente em casa.
Ao Bruno Guimarães, não deem nem água.
Amanhã, se marcar o gol do título, voltarão a chamá-lo de gênio.
E o futebol brasileiro seguirá com a memória curta de quem confunde paixão com conveniência.






