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A quem nunca foi espremido e humilhado por um trem lotado, pouco importará esta reportagem. Ela não foi escrita para os que escolhem o jogo pela cadeira mais confortável. Este texto é para outro sujeito. O mesmo que desperta antes do sol nascer, coloca a camisa do clube e parte sem saber se voltará feliz pelo resultado. Porque a vitória nunca foi garantia. A despesa, essa sim, jamais falha. Quanto custa torcer?
Às quatro da tarde, esse sujeito escuta o inevitável “olha o amendoim da Santa Helena”. O trem chega cheio como se já tivesse atravessado metade da cidade. Ainda assim, ele entra. Não porque haja espaço, mas porque quem ama um clube aprende cedo que certas batalhas começam muito antes do apito inicial. Antes da bola rolar, já existe um campeonato sendo disputado contra o relógio, o transporte e o próprio bolso.
Espremido entre mochilas, marmitas e trabalhadores que talvez nem saibam quem joga naquela noite, ele faz as primeiras contas do dia. O ingresso já está comprado. Agora resta descobrir quanto custará chegar até ele. O trem leva R$ 7,60. Depois vem o metrô, outros R$ 7,90. Na volta, o mesmo percurso. Antes mesmo de enxergar o gramado, mais de trinta reais desapareceram sem que uma única bola tivesse sido chutada.
Esse sujeito sorri. Não por achar barato. Sorri porque aprendeu a rir da própria tragédia. Há muito percebeu que torcer é um exercício de insistência. O futebol promete noventa minutos de felicidade e cobra um dia inteiro de sacrifícios. Ainda assim, ele segue viagem. Há quem viaje por trabalho. Há quem viaje por necessidade. Ele viaja por amor.
Lhe contaram do levantamento da Press FC Assessoria referente à Série A de 2026, que afirma que o ingresso médio do Flamengo custa R$ 72,70. O Vasco aparece logo atrás com R$ 62,06. Fluminense e Botafogo registram médias de R$ 45,63 e R$ 45,44. Esse sujeito observa os números como quem encara a escalação do adversário. Não entende muito de economia. Mas entende quando o salário acaba antes do fim do mês.
Enquanto atravessa a cidade, uma pergunta lhe atravessa a cabeça. Quando foi que o futebol ficou tão caro? Ele não encontra resposta na janela do trem. Resolve procurá-la em quem fez disso objeto de estudo. E assim desce do trem e vai a UERJ e chega até João Vitor Sudário, pesquisador colaborador do Observatório Social do Futebol, da UERJ. Quem sabe um especialista consiga explicar aquilo que a catraca apenas cobra.
Sudário lhe diz que existe um nome para essa transformação. Arenização. Depois da Copa do Mundo de 2014, os estádios ganharam cadeiras mais confortáveis, telões, espaços gourmet e novos padrões de consumo. O espetáculo ficou mais moderno. Mas modernidade, no futebol, nunca foi sinônimo de gratuidade. Alguém precisaria pagar por ela. E esse alguém sempre foi o torcedor.
O pesquisador vai além. Explica que o processo de elitização não aconteceu por acaso. Foi uma escolha. Em alguns clubes, afirma, já há mais espectadores do que torcedores. A frase faz esse sujeito franzir a testa. Espectador ele sabe o que é. Compra um ingresso, assiste ao jogo e vai embora. Torcedor, não. Torcedor sofre na segunda-feira por causa de um gol perdido no domingo.
Ao deixar a universidade, toma o trem novamente. Esse sujeito continua pensando na diferença entre um e outro. Recorda-se da primeira vez em que entrou num estádio. Não lembra do placar. Nem do árbitro. Lembra apenas da mão que segurava a sua enquanto subia a rampa. O futebol, descobre agora, nunca foi apenas um jogo. Era também uma herança. Um costume passado de pai para filho, de avô para neto, de amigo para amigo.
Chega enfim ao estádio. Do lado de fora, vendedores disputam espaço nas calçadas. Camisas, bandeiras, bonés, chaveiros. O futebol sempre foi uma feira de sonhos. Mas os sonhos também sofreram inflação. O sujeito recordou da última vez que foi ao shopping. Uma camisa oficial custa entre R$ 399,99 e R$ 449,99. Esse sujeito lembra de passar os dedos pelo tecido como quem acaricia um objeto sagrado. Depois olha para a etiqueta. A fé permanece. O dinheiro, nem tanto.
Ao atravessar os portões, imagina que o pior ficou do lado de fora. Engana-se. A partida ainda nem começou e um novo adversário aparece no placar. A fome.
Esse sujeito olha para o cardápio como quem observa a escalação do adversário. Há sanduíches entre R$ 6 e R$ 15. Um refrigerante ou uma água custa, em média, R$ 9,50. A cerveja chega aos R$ 33.
Durante alguns segundos, trava-se um duelo silencioso entre o estômago e a carteira. O primeiro pede alimento. A segunda implora misericórdia. O sujeito aprende que, nas arenas modernas, até a sede passou a ser vendida como artigo de luxo.
Enquanto procura seu lugar na arquibancada, esse sujeito encontra Matheus Borges. Flamenguista desde menino, ele sorri com a naturalidade de quem já aceitou que amar um clube virou um compromisso financeiro. Conta que, em dias de jogo, gasta facilmente mais de R$ 150, sem incluir o valor do ingresso. Parece absurdo, mas já se acostumou. O que ainda não conseguiu aceitar foi outra conta, muito mais dolorosa.
Matheus aponta para uma cadeira vazia e diz que ali poderia estar a pessoa que lhe apresentou o Maracanã. Foi ela quem lhe ensinou a cantar antes mesmo de aprender a brigar com o juiz. Hoje, porém, prefere assistir às partidas pela televisão. Não porque perdeu o encanto pelo futebol, mas porque o futebol ficou caro demais para quem ajudou a construir a sua história. Há saudades que não cabem no orçamento.
Esse sujeito permanece em silêncio. Descobre que os números nem sempre aparecem em planilhas. Alguns aparecem em cadeiras vazias. Outros na ausência daquele abraço depois do gol, daquele comentário no intervalo ou da caminhada até a estação discutindo uma substituição.
Há despesas que o extrato do banco não registra, mas a arquibancada denuncia.
Pouco depois, cruza com Carlos Henrique, torcedor do Fluminense. Diferentemente de Matheus, Carlos transformou o ato de torcer numa engenharia financeira. Observa o calendário, escolhe os jogos, procura sempre o setor mais barato e organiza o mês para não comprometer outras despesas. Conta que, depois da conquista da Libertadores de 2023, acompanhar o clube ficou mais caro. Na sua visão, o sucesso esportivo também elevou o preço da paixão.
Esse sujeito percebe então que todos ali fazem contas. Uns calculam quantos pontos faltam para escapar do rebaixamento. Outros calculam quanto falta no salário para voltar ao estádio. O futebol, que um dia se media em gols, hoje também se mede em parcelas. A arquibancada continua cheia, mas já não é necessariamente formada pelos mesmos rostos. Continuou pensando enquanto o FLAxFLU acontecia no Maracanã.
Na tentativa de aliviar os custos, ele resolve conhecer os programas de sócio-torcedor. Entra nos sites dos clube como quem procura uma promoção de última hora. Descobre o Nação Maraca 1 do Flamengo. R$ 357,90 por mês. Sem nenhum benéfico além de um lugar exclusivo na fila virtual da compra de ingressos e um desconto no mesmo. Logo depois encontra o Dinamite Eterno do Vasco. R$ 779,98. Fecha a tela do celular assustado nem lendo os benefícios do plano.
Pela primeira vez entende que o futebol aprendeu uma velha lição do mercado: vender pertencimento pode ser tão lucrativo quanto vender vitórias. Ao deixar o estádio, passa inevitavelmente pela loja oficial. O brilho das camisas novas chama atenção como sempre chamou. Há crianças convencendo os pais, adultos convencendo a si mesmos e torcedores apenas olhando pela vitrine. Vestir as cores do clube tornou-se um investimento. Esse sujeito lembra que, quando criança, uma camisa passava de irmão para irmão. Hoje, muitas vezes, passa direto pelo orçamento.
O sujeito se recorda que o futebol brasileiro nasceu popular. Nasceu nas fábricas de Bangu, espalhou-se pelos subúrbios, ocupou ruas, terrenos baldios e campos de terra. Antes de ser um negócio bilionário, foi um encontro de gente simples. Gente que talvez não tivesse dinheiro para o bonde da volta, mas jamais deixava de cantar. A arquibancada nunca foi apenas concreto. Sempre foi memória.
Esse sujeito finalmente chega em casa.
Coloca a camisa sobre a cadeira, esvazia os bolsos e encontra o comprovante do trem, o bilhete do metrô e o ingresso amassado. Faz a soma. O resultado assusta. Mesmo assim, sabe que, no próximo jogo, repetirá tudo outra vez.
Porque a paixão nunca aprendeu matemática.
E talvez seja justamente por isso que o futebol tenha aprendido a cobrá-la tão caro. A pergunta desta reportagem, afinal, nunca foi apenas quanto custa ser torcedor.






