Azzurra desistiu da contratação de Pirlo. Foto: Getty Images
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A fase da Azzurra e o desafio de voltar ao topo Entre crises dentro e fora de campo, Itália aposta em um novo projeto para recuperar o protagonismo perdido

Mais um capítulo de instabilidade marca o caminho da tetracampeã mundial neste século. Paolo Maldini e Leonardo, contratados para comandar a reconstrução da Azzurra, deixaram seus cargos de diretor técnico e consultor, respectivamente, apenas 16 dias após serem anunciados. Na tentativa de reorganizar a seleção nacional, o zagueiro italiano e o lateral brasileiro apostaram no nome de Andrea Pirlo para comandar este novo ciclo. 

O nome de Pirlo, no entanto, não agradou a FIGC, federação italiana. O ex-atleta, que atualmente comanda o Dubai United, dos Emirados Árabes Unidos, é embaixador de uma casa de apostas russa. A ligação gerou desconforto entre alguns membros da federação, devido ao conflito armado entre Rússia e Ucrânia, o que levou a FIGC a descartar o nome do italiano. A situação gerou grande desgaste interno, culminando na saída de Maldini e Leonardo poucos dias após assumirem o projeto. O episódio se soma a uma série de fracassos esportivos e mudanças de rumo que ajudam a explicar por que a Azzurra vive uma das maiores crises de identidade de sua história recente.

O declínio de uma potência

Quatro vezes campeã mundial, a Itália construiu uma forte identidade no mundo do futebol. Grande solidez defensiva, excelência tática e disciplina foram pilares dessas conquistas. A filosofia aplicada ao futebol italiano foi fundamental para moldar as seleções nas conquistas mais recentes, em 1982 e 2006. A identidade da Azzurra também era sustentada pelo protagonismo da Serie A, principal campeonato do país, que durante décadas foi considerada uma das ligas mais importantes do mundo, mas perdeu grande parte do prestígio conquistado. Com menor capacidade de investimento e menos força no mercado internacional, a Serie A perdeu espaço para ligas como a Premier League e La Liga. 

Enquanto a Serie A perdia força econômica e midiática, o campeonato inglês, por exemplo, investiu na internacionalização da sua marca desde a criação da Premier League, no início dos anos 90. Com um modelo comercial mais agressivo e investimentos crescentes em direitos de transmissão, a liga passou a atrair grandes nomes do futebol mundial como Marcel Desailly, Dennis Bergkamp e a jovem promessa Thierry Henry. Com isso, a liga inglesa se tornou um produto de entretenimento global. Atualmente, a Premier League é transmitida para mais de 200 países ao redor do mundo, resultando em uma exposição massiva da sua marca. 

Depois de conquistar o mundo pela quarta vez, 20 anos atrás, a Azzurra não conseguiu acompanhar a modernização do futebol. Diferentemente de outras ligas e federações, a Itália encontrou dificuldades para replicar aspectos que marcam o futebol contemporâneo, como intensidade física, versatilidade tática e protagonismo ofensivo no seu futebol. O resultado é uma seleção que já não reproduz o estilo que a consagrou e, ao mesmo tempo, ainda não conseguiu consolidar uma nova identidade em campo.

Os reflexos em campo

Desde o título conquistado em 2006, a Itália acumula uma sequência de campanhas decepcionantes. Em 2010, na África do Sul, chegando como atual campeã, a seleção italiana se despediu do mundial após somar apenas dois pontos na primeira fase. A equipe encerrou sua campanha na quarta colocação de um grupo composto por Paraguai, Eslováquia e Nova Zelândia. No Mundial seguinte, disputado no Brasil, a história se repetiu. Em um grupo com Costa Rica, Uruguai e Inglaterra, a Azzurra venceu apenas os ingleses, terminou com três pontos e voltou a ser eliminada ainda na fase de grupos. As duas eliminações precoces em sequência começaram a expor o declínio de uma das seleções mais tradicionais do futebol mundial. 

Se as eliminações seguidas na fase de grupos já acendiam um sinal de alerta, os ciclos seguintes intensificaram a crise. Em 2026, a Itália chegou à marca de três eliminações consecutivas nas Eliminatórias da Copa do Mundo, um feito inédito para a tetracampeã mundial. Após a Copa de 2014, a expectativa tanto dentro da Itália quanto ao redor de todo o mundo era de que a seleção se recuperasse para o próximo ciclo. E os resultados dentro de campo pareciam apontar para isso durante as eliminatórias. Foram sete vitórias e dois empates durante a fase classificatória. Mas uma única derrota, um 3 a 0 para a Espanha, foi o suficiente para deixar a Itália na segunda colocação do grupo e obrigar a Azzurra a disputar os playoffs.

Do outro lado estava a Suécia, que havia disputado uma copa pela última vez justamente em 2006. Com a derrota por 1 a 0 no jogo de ida, a seleção italiana não conseguiu reverter a desvantagem diante de sua torcida e empatou em 0 a 0. A eliminação sacramentou a primeira ausência em copas da Itália desde o Mundial de 1958, copa que, curiosamente, foi sediada pela Suécia. E o que parecia um caso isolado acabou se tornando um padrão nos anos seguintes. Mas em meio a essa turbulência, a Itália viveu um breve respiro. 

Sob o comando de Roberto Mancini, a Azzurra conquistou a Eurocopa em 2021. Superando a Inglaterra nos pênaltis, em Wembley, a seleção viveu o seu primeiro grande momento desde a Copa do Mundo de 2006. Entre outubro de 2018 e crisesetembro de 2021, foram 37 partidas de invencibilidade, contando com uma incrível sequência de 13 vitórias consecutivas neste período. As boas atuações e o título conquistado foram o suficiente para alimentar a expectativa de que a Itália havia reencontrado o caminho do sucesso futebolístico. 

No entanto, a sensação durou pouco tempo. Menos de um ano depois, a Itália amargou novamente a segunda posição nas eliminatórias para a Copa do Mundo e teve que disputar os playoffs da competição pelo segundo ciclo consecutivo. O adversário da vez era a Macedônia do Norte, que conseguiu uma vitória histórica em Palermo, deixando a tetracampeã mundial fora de mais uma Copa do Mundo. Para 2026, havia um fio de esperança, mesmo que dentro de campo o futebol não empolgasse tanto como em anos passados. A ampliação da Copa do Mundo de 32 para 48 seleções constituía um cenário teoricamente mais favorável para a Azzurra. A expectativa, porém, não se confirmou. Derrotada pela Bósnia nos pênaltis, novamente diante de sua torcida, a Itália ficou fora da Copa do Mundo pela terceira edição consecutiva. 

O desafio de reconstruir a Azzurra

Após toda a confusão e desgaste durante a procura de um novo técnico para comandar o projeto de reconstrução da seleção nacional, a Itália recorreu a um velho conhecido. Roberto Mancini, comandante da campanha vitoriosa na Euro 2020, foi o escolhido para o projeto. Apesar do título conquistado, os torcedores italianos ainda carregam ressentimentos em relação ao comandante. Isso porque, em 2023, o treinador deixou a Azzurra para comandar a Arábia Saudita, o que não foi visto com bons olhos pelos italianos. 

O objetivo nesta segunda passagem é claro: além de reconquistar a confiança da sua nação, Roberto Mancini planeja identificar os melhores jogadores e ajudá-los a se desenvolver. Acompanhando jogadores desde a base, o plano é fazer com que esses jovens atletas construam uma identidade tática em comum. Com isso, o trabalho do novo treinador vai muito além de apenas recolocar a Itália em um Mundial. Os resultados recentes mostram que o problema é muito mais profundo. Para retomar o protagonismo, a tetracampeã mundial precisará reencontrar um modelo de futebol capaz de conectar seu passado vitorioso às exigências do futebol moderno.

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