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Quando José Tarciso de Sousa desembarcou em Porto Alegre, em 1973, o Grêmio ainda buscava recuperar o protagonismo no futebol brasileiro. Vindo do America do Rio de Janeiro, o atacante mineiro chegava sem o status de grande contratação nacional.
Tinha apenas 21 anos, velocidade como principal característica e uma carreira inteira pela frente. O que ninguém poderia prever era que aquele jovem permaneceria por 13 temporadas no Olímpico, se tornaria o jogador que mais vezes vestiu a camisa tricolor e ajudaria a construir a geração mais vencedora da história do clube.
Tarciso nasceu em 15 de setembro de 1951, em São Geraldo, na Zona da Mata mineira. O detalhe passaria despercebido durante boa parte de sua vida, mas ganharia um significado especial anos depois. Sua data de nascimento coincidia com a fundação do Grêmio, criado em 15 de setembro de 1903. Separados por 48 anos, clube e jogador dividiam o mesmo aniversário, uma coincidência que a torcida costuma lembrar como uma das curiosidades mais simbólicas da história gremista.
A carreira começou no futebol carioca, defendendo o América-RJ. Atuando como ponta-direita, destacava-se pela arrancada, pela força física e pela facilidade de atacar os espaços. Foi ali que chamou a atenção do Grêmio, que buscava renovar seu elenco para enfrentar um período de profundas transformações.
Os primeiros anos em Porto Alegre foram desafiadores. O Internacional vivia a maior fase de sua história e acumulava títulos estaduais, enquanto o Grêmio tentava reorganizar o futebol. Tarciso fez parte desse processo desde o início. Ganhou espaço no time titular, tornou-se peça importante do ataque e acompanhou a evolução de uma equipe que, aos poucos, voltava a competir em alto nível.
Em 1977, viveu um dos momentos que mudariam sua carreira. Durante uma transmissão, o narrador Haroldo de Souza procurava uma forma de definir a velocidade do atacante. Surgiu ali o apelido Flecha Negra, incorporado imediatamente pelos torcedores e que o acompanharia pelo resto da vida.
Naquele mesmo ano, o Grêmio encerrou um jejum de oito temporadas sem conquistar o Campeonato Gaúcho. A vitória sobre o Internacional representou mais do que um título estadual. Marcou a retomada da confiança do clube e abriu caminho para um ciclo que mudaria definitivamente a história gremista. Tarciso esteve no centro dessa transformação.
Vieram ainda os Campeonatos Gaúchos de 1979, 1980, 1985 e 1986, consolidando uma equipe que deixava de ser apenas competitiva para se tornar vencedora.
O reconhecimento nacional chegou em 1981. Sob o comando de Ênio Andrade, o Grêmio conquistou o primeiro Campeonato Brasileiro de sua história. Tarciso era um dos jogadores mais experientes daquele elenco e, embora não fosse o atleta mais midiático da equipe, sua regularidade fazia dele presença praticamente obrigatória nas partidas decisivas.
Dois anos depois, o clube viveu a temporada mais importante de sua trajetória. Em 1983, conquistou a Copa Libertadores da América diante do Peñarol. Poucos meses mais tarde, no Estádio Nacional de Tóquio, derrotou o Hamburgo por 2 a 1 e levantou a Copa Intercontinental, o Mundial de Clubes da época. Enquanto Renato Portaluppi ficou marcado pelos dois gols da decisão, Tarciso representava a continuidade de um projeto iniciado muitos anos antes, quando o Grêmio ainda buscava espaço entre os grandes do país.
Ao final de sua passagem pelo clube, os números confirmavam a dimensão de sua trajetória: 723 partidas e 228 gols, marcas reconhecidas oficialmente pelo Grêmio. Até hoje, nenhum outro jogador entrou em campo tantas vezes com a camisa tricolor.
A importância de Tarciso nunca foi medida apenas pelas estatísticas
Durante 13 temporadas, ele construiu uma relação rara com a torcida. Não era um jogador de declarações polêmicas nem alguém que buscasse protagonismo fora das quatro linhas. Sua identificação nasceu da regularidade, da disciplina e da entrega em campo. Em uma época marcada por equipes intensas e competitivas, tornou-se referência justamente por representar esses valores.
A camisa 7 ganhou outro significado dentro do Grêmio
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Mais do que identificar um atacante, o número passou a carregar uma história. Cada jogador que vestiu a camisa 7 nas décadas seguintes inevitavelmente foi comparado ao Flecha Negra. Não apenas pelos gols ou pela velocidade, mas pelo compromisso com o clube. A camisa tornou-se uma herança, e Tarciso foi quem lhe deu esse peso.
A passagem pelo Grêmio chegou ao fim em 1986, mas não sua carreira. Depois de treze temporadas no Olímpico, Tarciso seguiu jogando em outros clubes. Defendeu o Goiás, onde conquistou mais um título estadual, passou pelo Cerro Porteño, do Paraguai, levantando também o campeonato nacional, vestiu as camisas de Coritiba e Goiânia, e encerrou a trajetória como jogador em 1990, no São José, de Porto Alegre.
Ainda assim, sua identidade permaneceu ligada ao Grêmio. Os 13 anos vestindo a camisa tricolor haviam sido suficientes para transformá-lo no jogador que mais vezes representou o clube em campo e em um dos maiores artilheiros de sua história.
Mais tarde, ingressou na vida pública e foi eleito vereador de Porto Alegre por três mandatos consecutivos, sempre mantendo forte ligação com o Grêmio e com iniciativas voltadas ao esporte.
Em 5 de dezembro de 2018, morreu aos 67 anos, após enfrentar um câncer ósseo. O Grêmio decretou luto oficial e prestou homenagens ao jogador que ajudou a construir um dos períodos mais importantes de sua história. Ex-companheiros, adversários e torcedores lembraram não apenas o atleta, mas o homem que se tornou símbolo de uma geração.
Décadas depois de sua estreia, o nome de Tarciso continua associado aos grandes momentos do Grêmio. Está nas imagens das conquistas de 1981 e 1983, nos relatos de quem frequentou o Olímpico e na memória de uma torcida que aprendeu a enxergar na camisa 7 muito mais do que um número.
Ela carrega a lembrança de um jogador que atravessou gerações sem precisar reinventar sua história. Bastou construí-la, jogo após jogo, até se tornar parte definitiva da identidade do Grêmio.
O Flecha Negra virou mascote

O legado de Tarciso ganhou um novo capítulo em 2024. Durante as comemorações pelos 121 anos do Grêmio, o clube apresentou oficialmente o Flecha Negra como um de seus mascotes institucionais, uma homenagem direta ao camisa 7 de sua história.
A iniciativa buscou eternizar não apenas o apelido criado pelo narrador Haroldo de Souza, mas também os valores que Tarciso representou ao longo de treze temporadas no Olímpico: velocidade, entrega, humildade e identificação com a camisa tricolor.
Mais do que uma figura para eventos ou ações com a torcida, o mascote passou a simbolizar uma parte importante da identidade gremista. Ao transformar Tarciso em personagem oficial do clube, o Grêmio reconheceu que sua história ultrapassou os limites das quatro linhas.
Poucos jogadores recebem uma homenagem dessa dimensão. Tarciso não apenas entrou para a galeria dos grandes ídolos do Grêmio. Tornou-se um símbolo permanente do clube, presente ao lado das novas gerações para lembrar que algumas histórias jamais terminam.






