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Numa barbearia, em tempos de Copa, só se fala de uma coisa: futebol. E um debate acalorado entre dois clientes chamou minha atenção.
— Não vou torcer para o Brasil. Essa seleção é uma bosta. Odeio este país de merda governado por ladrões.
O outro, indignado, respondeu
— E tu vai torcer para quem? Portugal? Argentina? Tu nasceu no Brasil, idiota. És brasileiro. Tens de torcer pelo teu país. Verei os jogos e torcerei, mesmo sabendo que talvez não cheguemos às quartas de final.
Enquanto isso, nos corredores dos grupos de WhatsApp, brada-se que não passaremos da Colômbia. Que Senegal nos eliminará. Que a tragédia já está escrita e basta esperar os noventa minutos para confirmá-la.
Vos digo que talvez não sejamos mais os vira-latas de 1958. Evoluímos. Tornamo-nos poodles de madame.
Quando contrariados, mordemos o chinelo, fazemos xixi no tapete e rasgamos as almofadas. Não suportamos a possibilidade da frustração e, por isso mesmo, preferimos decretar o fracasso antes da batalha.
Pois bem. É assim que o brasileiro torce pela Seleção. Como um poodle mimado.
Não sabe apoiar. Não sabe sofrer junto. Se vence, diz
— Não me convenceu.
Se perde, sentencia
— Inúteis. Não sabem jogar bola.
A verdade é que o torcedor brasileiro não tem fome de título. Tem saudade da sensação de vencer. São coisas diferentes.
Se torcêssemos pela Seleção como o flamenguista torceu pelo bicampeonato da Libertadores, ou como o corintiano acreditou no Mundial de 2012, talvez não ouvíssemos diariamente que não podemos, não sabemos e não conseguiremos ganhar uma Copa do Mundo.
Se um dia soubemos torcer pela Seleção, castramos essa capacidade. Hoje, chega a ser constrangedor demonstrar fé. O sujeito admite acreditar no Brasil e recebe olhares como se tivesse confessado uma heresia.
As circunstâncias mudaram desde 1958. O futebol mudou. O mundo mudou. Mas o nosso futebol continua tendo pudor de acreditar em si mesmo.
E quem sabe o problema nunca tenha sido a falta de títulos.
Quem sabe o problema seja a falta de fé.






