Futebol, Futebol Internacional

Conheça a inexistente Unión Deportiva Salamanca, principal causadora de suas Hidras de Lerna que ocasionam a rivalidade mais curiosa da Europa

Hidra de Lerna, na mitologia grega, se trata de um monstro, filho de Tifão e Equidna, habitante da atual região costeira de Peloponeso. Se tratando de um mito conhecido por todo o mundo, a Hidra tem seu corpo semelhante a um dragão, constituído com a parte superior de uma serpente, que segundo a mitologia, após perder sua cabeça, cresciam duas em seu lugar, regenerando-se e dobrando de tamanho. Mas afinal, o que isso tem a ver com o Salamanca, antigo, tradicional e inexistente clube espanhol? Confira abaixo:


UNIÓN DEPORTIVA SALAMANCA:

Fundada em 1923, a Unión Deportiva Salamanca, clube já inexistente, foi responsável por vitórias inesquecíveis e inúmeras temporadas na La Liga. Com boas campanhas e goleadas contra grandes rivais, como Barcelona, Valencia e Atlético de Madrid, o clube chegou a ser chamado de “Matagigantes” no país. Sendo tetracampeã da terceira divisão e quatro vezes vice da segunda, o ex-clube salmantino já foi “figurinha carimbada” na elite espanhola. Contudo, após anos de más gestões financeiras e acúmulos de dívidas, os alvinegros faliram em seu nonagésimo ano de história.

ANOS 70, EL HELMÁNTICO E A SEQUÊNCIA HISTÓRICA NA LA LIGA:

Devido uma rápida evolução do Salamanca no cenário nacional e crescimento de sua torcida, a diretoria do clube efetuou a compra de um terreno para a construção de um novo estádio, o Helmántico. Com capacidade para cerca de 20 mil torcedores, o Salamanca obteve um enorme ganho de imponência nos jogos disputados em sua casa, fazendo de seu estádio, um verdadeiro caldeirão.

Após anos passados em divisões inferiores, o Salamanca, com a finalização de sua nova fortaleza e contando com a chegada do técnico José Luís García Traud, finalmente chegava ao auge do futebol espanhol. Posterior ao bom trabalho feito na segunda divisão, a UDS disputava, pela primeira vez, a La Liga, e não foi a passeio. Foram ao todo, sete longínquas temporadas em que a equipe “Charra” deu trabalho aos grandes do país.

Os onze iniciais do Salamanca na temporada 1974-75 (Créditos: UDS)

Desse modo, conseguindo boas campanhas, o clube salmantino chegou a ver, de muito perto, uma vaga em ligas europeias escapar de suas mãos. Porém, apesar de não viajar pelo continente europeu, a equipe alvinegra fez história ao chegar na semifinal da Copa do Rei, parando apenas para o Athletic Bilbao, que seria derrotado na final pelo Betis.

Embora tenha sido o estreante, os Charros obtiveram sua melhor campanha logo em sua estréia na elite. Conseguindo o sétimo posto no campeonato e por um ponto de uma Copa dos Campeões (antiga Champions League), os alvinegros por muito pouco não conheceram o continente europeu. Desse modo, os Salmantistas finalizaram o campeonato na parte superior da tabela, em quatro oportunidades, descendendo apenas em sua sétima participação no torneio.

INSTABILIDADE NOS ANOS 90:

Após sofrer com inúmeras dívidas geradas durante anos de gestões, a temporada 1991-92 transformou a Unión Deportiva Salamanca, em uma Sociedade Anônima Desportiva (S.A.D.). Com isso, o clube passou por uma instabilidade durante o início da nova gestão, sendo um tempo de divisor de águas para as instituições de futebol na Espanha.

Sendo assim, após algumas campanhas irregulares na segunda divisão, o Salamanca chegou a visitar o terceiro nível do futebol espanhol. Entretanto, depois da chegada de Lillo, atual assistente de Pep Guardiola, o clube finalmente voltou ao topo da Espanha após dois acessos seguidos.

Jogadores salmantinos em festa junto com a torcida na Plaza Mayor (Créditos: Diario AS)

Contudo, depois da felicidade alvinegra, o Salamanca não resistiu e caiu logo em sua volta, resultando também numa queda do treinador Lillo. Apesar do balde de água fria que os salmantinos haviam levado, o plantel foi reestruturado e acompanhado com boas contratações como Míchel Salgado, Pauleta, César Brito e Giovanella, que ao comando de Goikoetxea, subiu mais uma vez.

FINAL DA DÉCADA NOVENTISTA E AS ÚLTIMAS BOAS MEMÓRIAS DA UDS:

A temporada de 1997-98 foi marcante para os Charros. Embora o torneio tenha remetido grandes recordações, não foi uma grande campanha que alegrou seus torcedores, visto que o clube encerrou o campeonato em décimo quinto. No entanto, a alegria dos salamanquenses foram os jogos históricos disputados naquele ano.

Com a simples estratégia de ganhar os jogos em casa e tentar surpreender de visitante, o Salamanca fez de seu estádio um caldeirão. Em sua tradicional fortaleza, o Helmántico, foram construídas histórias jamais esquecidas pelo seu torcedor.

Diante de equipes gigantes no cenário espanhol, o Salamanca encarou o Valencia, mas jamais se intimidou. A equipe valenciana foi até a cidade “charra”, e teve de levar seis gols na bagagem para a volta à casa, sendo um 6-0 humilhante aos murciélagos. Entretanto, o que era bom não parou. Diante do líder Barcelona, o Salamanca comemorou o “Dia dos Reis” protagonizando um 4-3 ao seu favor, mesmo após estar perdendo por 1-3 contra os catalães.

Vale lembrar também, que os alvinegros não pararam por aí. Venceram o Atleti, do craque Vieri, por 5-4 e golearam o Barça por 4-1, em pleno Camp Nou. Entretanto, esse seria o último ano feliz dos salmantinos, já que no ano seguinte iriam a “B” para nunca mais voltar.

Comemoração de Pablo Zegarra, peruano que ajudou o Salamanca a fazer história contra o Barcelona (Créditos: Diario AS)

AS DÍVIDAS E A QUEBRA:

Com a queda do clube no início dos anos 2000 e a dificuldade para voltar à elite, o Salamanca acumulou, por cerca de 10 anos, um valor de dívidas impossível de ser quitado pelo clube. Com isso, para pagar as despesas, o clube teve de pôr à venda o Estádio Helmántico, a loja do clube, jogadores, direito de imagem e inúmeras outras fontes de dívidas. Contudo, mesmo após 3 lotes e leilões individuais, não houve interesse de compra. Sendo assim, foi decretado o desaparecimento da Unión Deportiva Salamanca.

AS HIDRAS SALMANTINAS:

Devido o calvário alvinegro do clube Charro, foi-se cortada a primeira cabeça do mítico monstro grego. Como é sabido, a história das Hidras de Lerna, não param após o decepamento de sua primeira cabeça, e sim, acaba se tratando do início de uma história. Após a UD Salamanca deixar de existir, nasceram mais duas cabeças, uma em sua homenagem porém totalmente autônoma, e outra para ser a antiga inspiração da cidade, nascendo “colada” com os ideais da primeira cabeça da Hidra.

Hércules em duelo com as Hidras de Lerna

Confira abaixo, a regeneração do Salamanca e suas dissidências:

SALAMANCA CLUB DE FÚTBOL UDS:

Posterior ao fechamento do clube, Juan José Hidalgo, dono da empresa Dessarollos y Proyectos Monterrubio S.L., fundou o Club de Fútbol Salmantino, instituição adquirida através de uma negociação com o antigo Salamanca B, equipe filial e oficialmente uma agremiação distinta do UD Salamanca. Dessa maneira, foi adquirida, por € 250.000, a negociação dos direitos da UDS. Vale lembrar que o Club de Fútbol Salmantino, foi fundado com o intuito de ser o novo UD Salamanca.

No entanto, apesar do clube se inscrever para a disputa da Segunda Divisão B espanhola, torneio em que o CD Salamanca jogava (clube filial comprado e atual CF Salmantino), a Federação Espanhola impediu a participação do Salmantino no campeonato, alegando ser um novo clube, rebaixando-o para a sexta divisão.

Sendo assim, o novo clube da cidade foi se reerguendo aos poucos, chegando até a Segunda División B, torneio que os Charros disputam atualmente. Com isso, após seguidos ascensos do clube, mais precisamente em 2017, a empresa Dessarrollos y Proyectos comprou inúmeros bens da antiga UD Salamanca. Os bens adquiridos foram a loja oficial da UDS, a marca, o escudo, o hino, os troféus, o estádio e a documentação histórica da UDS, cedendo mais tarde todos os bens ao Salmantino.

*Devido vitórias na justiça local, hoje o clube se chama Salamanca CF UDS.

Escudo do Salamanca (Créditos: UDS)

UNIONISTAS DE SALAMANCA:

Fundado com o intuito de homenagear o antigo clube da cidade, mas com a intenção de criar uma nova identidade e instituição, antigos torcedores da UDS aproveitaram a sigla (Unionistas De Salamanca) e seu antigo apelido (Unionistas), para criar o novo clube autônomo da cidade. O Unionistas segue um caminho parecido ao Football Club United of Manchester, equipe fundada após uma revolta da torcida contra a compra do tradicional clube inglês.

Dessa forma, vale ressaltar que os criadores do Unionistas não possuem a menor tentativa de ser a antiga Unión Deportiva Salamanca. Destacado nacionalmente por ser um clube de projeto popular, o Unionistas é um clube democrático, diferentemente do normal, em solo espanhol.

Com isso, o Unionistas já conquistou o mesmo número de acessos que seu “primo” rival, o Salamanca CF, sendo um clássico disputado em uma mesma divisão, por torcedores que estavam do “mesmo lado” há 7 anos atrás.

Escudo do Unionistas (Créditos: La Cronica de Salamanca)

RIVALIDADE NA CIDADE E O FUTURO DOS “IRMÃOS BRIGADOS”:

O PRIMEIRO CLÁSSICO:

O dia 26 de novembro de 2017 marcou o futebol de Salamanca. Nesta data, entraram em campo dois clubes que, a priori, deveriam ser irmãos, mas que carregam uma rivalidade fervorosa dentro de uma cidade de 145 mil habitantes. Disputado no Helmántico, o Salamanca venceu o primeiro clássico pela vantagem mínima.

Apesar da festa dos salamanquistas, houveram manifestações antisemita e racistas na parte externa do estádio, por parte dos torcedores do Salamanca CF. Com imagens de Anne Frank, jovem judia vítima do holocausto, vestida com a camisa do Unionistas. Tal manifestação já foi feita pela torcida laziale contra a Roma, no Derby della Capitale.

Ainda que o clube oficialmente seja contra tais atitudes, esses tipos de manifestações não pararam por aí. Em 2019, por duas vezes em uma semana, torcedores do Salamanca vandalizaram a sede de seu rival, sendo em uma delas com pichações nazistas.

Devido a ocorrência de tais comportamentos, a totalidade da torcida do Salamanca CF recebe uma fama de extrema direita, visto que o clube ficou com a parcela conservadora e radical da antiga torcida, que em alguns grupos já se manifestava de tal modo.

O DÉRBI:

O primeiro clássico disputado no Helmántico, apesar dos clubes tentarem apaziguar uma futura rivalidade, talvez tenha sido o principal motivo para o crescimento do dérbi.

No intervalo, dois empregados do Unionistas saíram expulsos do estádio, por estarem filmando a partida. Já no segundo tempo, o jogador mexicano Kristian Álvarez, do Salamanca, foi responsável por um furioso “cotovelaço” no rosto de Álvaro Romero, do Unionistas. No entanto, tal agressão não foi vista pelos árbitros, havendo punição de quatro partidas ao jogador salamanquista após o confronto.

Devido inúmeras brigas e provocações nesta partida, o Salamanca decidiu romper relações com seu “irmão”, impedindo o Unionistas de jogar em seu estádio. Com isso, mais tarde o Salamanca impediu o Unionistas de jogar no Helmántico contra o Real Madrid, em uma partida válida pela Copa do Rei. Sendo assim, o Estádio das Pistas passou a receber o Unionistas, campo secundário do Helmántico, com apenas 50 metros de distância ao principal.

Real Madrid e Unionistas disputando “en Las Pistas” (Créditos: Getty Images)

RETROSPECTO:

  • Total de partidas: 8 clássicos
  • O primeiro: 26/11/2017 – Salamanca 1 – 0 Unionistas
  • Maior vencedor: Salamanca CF UDS (4 vitórias)
  • Retrospecto: 4 vitórias do Salamanca/ 3 empates/ 1 vitória do Unionistas
Nacho López comemora o gol da vitória do Salamanca no clássico de 2021, aumentando a vantagem histórica sobre o rival (Foto: María Serna)

O FUTURO DAS EQUIPES:

Após o curto período de muitos enfrentamentos do clássico nas competições, o Unionistas apesar de inicialmente encontrar um carrasco de sua equipe, é o clube que mais cresceu. Desse modo, em questão de organização e transparência, o Unionistas é um clube em boa gerência e com expectativa de crescimento maior que seu rival. A prova disso é que, em pouco tempo, já está de mudança. O clube irá se mudar para um novo estádio, o Reina Sofía, com capacidade para 4 mil pessoas. A expectativa para os Unionistas, são boas, com um ótimo potencial de crescimento ao longo dos anos.

Ao contrário de seu vizinho, o Salamanca não está em bons lençóis. Diferentemente de seu rival, o clube salmantino enfrenta uma pressão muito maior para a reestruturação. Ainda que tenha uma boa estrutura, o Salamanca possui uma imensa dificuldade em questão de suas dívidas e despesas. Vale lembrar que, diferentemente do Unionistas, o Salamanca é governado por um dono, havendo assim uma dependência de boas gestões para a melhora do instituição. Ainda assim, o clube se contenta em se manter na terceira divisão e pelo menos, na partida mais importante do torneio, vem obtendo sucesso. As expectativas para o futuro salamanquista, não é das melhores, mas quem sabe o clube nos surpreenda?

Por fim, essa foi a segunda postagem de um projeto falando sobre “Clássicos no Mundo”, se você curtiu e quer saber sobre outros grandes duelos em mais lugares do planeta, deixe sua curtida, compartilhe, siga o PressFut e comente pedindo o próximo “derby”. Muito obrigado!

Conheça a tradição de Desportiva e Rio Branco, os protagonistas do Clássico dos Gigantes Capixabas

Tiago Emanuel

Jornalista em progressão e amante do futebol passional.
Ler todas as publicações de Tiago Emanuel
0 0 votes
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments