Rolé Carioca em Bangu. Foto: Daniel Dutra/PressFut
Entrevistas, Futebol

Bangu: Rolé Carioca conta as histórias de pioneirismo do bairro no futebol brasileiro A luta contra o racismo, o primeiro patrocínio no futebol e as demais histórias do bairro que foi na contramão da elite carioca

A PressFut acompanhou o Rolé Carioca no bairro que deu o pontapé inicial no futebol do Brasil. O time da região foi o pioneiro a ter um jogador negro e a estampar um patrocínio na camisa. E detalhe: tudo isso nasceu em uma fábrica de tecidos que hoje mudou de cara – virou shopping – mas ainda preserva a arquitetura original. Estamos falando de Bangu!

​Na edição do Rolé Carioca: Memória e Futebol, caminhamos pelo bairro explorando o lado B da história e a contribuição fundamental dele para o futebol brasileiro. Tudo isso acompanhado por historiadores e pelo pesquisador convidado, Carlos Molinari, uma verdadeira autoridade quando o assunto é Bangu Atlético Clube.

O Negro no Futebol Brasileiro

“Temos o pioneirismo racial, por exemplo, com Francisco Carregal, o primeiro jogador negro do futebol nacional, que estreou em 14 de maio de 1905, em um amistoso contra o Fluminense. Ele abriu caminhos para muitos outros, como Manuel Maia, um operário que foi goleiro da equipe no Campeonato Carioca de 1906. Além disso, em 1907, quando a liga determinou a exclusão de jogadores negros, o Bangu recusou-se a acatar a decisão, mantendo-se fiel aos seus trabalhadores.” – informou o historiador Carlos Molinari.

“Existe um debate historiográfico acerca do pioneirismo no Brasil, com disputas de narrativas que incluem a Ponte Preta e registros de jogadores negros no Rio Grande do Sul, no final do século XIX. Contudo, o Bangu ocupa um lugar central nessa discussão. No Rio de Janeiro, podemos afirmar com segurança que o clube foi determinante para a inclusão de jogadores negros no esporte.” – complementou o historiador Diego Rogério.

O historiador Diego Rogério contextualiza que nas primeiras décadas do futebol brasileiro, havia uma forte exclusão, uma vez que o esporte foi introduzido por imigrantes europeus e possuía uma origem elitista, concentrada em clubes da Zona Sul. Em contrapartida, o Bangu possuía uma ligação direta com a classe operária e as fábricas da região. Dessa forma, os primeiros times do Bangu eram formados por trabalhadores. Embora o futebol não fosse profissionalizado — tornando as relações de trabalho mais informais —, o Bangu mantinha um vínculo mais estreito com seus atletas, fundamentado na identidade com o bairro e com a própria fábrica. Esse sentimento de pertencimento, segundo Diego, permanece até hoje.

“A figura de Francisco Carregal, o primeiro jogador negro associado ao clube e ao trabalho fabril, simboliza o papel do Bangu na popularização do futebol. Mário Filho, em “O Negro no Futebol Brasileiro”, descreve como as elites da época tentaram resistir à presença de trabalhadores negros, cujos talentos e vigor físico desafiavam a hegemonia daquelas classes que se julgavam superiores. O Bangu foi o primeiro clube no Rio de Janeiro a enfrentar essa segregação. Anos mais tarde, o Vasco da Gama também protagonizaria uma luta importante pela presença desses atletas. Mas é legítimo questionar se essa resistência teria ocorrido sem o precedente estabelecido pelo Bangu. Na década de 1930, outros clubes passaram a ter uma presença mais expressiva de jogadores negros — como o Flamengo, com Leônidas da Silva, e o histórico de Arthur Friedenreich, cuja identidade racial, lida na época através de terminologias hoje inadequadas, também compõe esse cenário.”

Rolé Carioca no bairro Bangu

Rolé Carioca em Bangu. Foto: Daniel Dutra/PressFut
Rolé Carioca em Bangu. Foto: Daniel Dutra/PressFut

​Começamos o passeio na estátua de Thomas Donohoe, o escocês responsável por espalhar o esporte entre os operários da fábrica em 1894. Seguimos pelo calçadão — a antiga Rua Ferrer —, sob a vista da Igreja de São Sebastião e Santa Cecília, em direção à sede social do Bangu, o famoso Cassino de Bangu, que nasceu para abrigar uma companhia musical e já recebeu grandes personalidades.

“O Bangu também foi o primeiro clube fabril do Brasil, criado para oferecer lazer aos operários da fábrica têxtil. Esse modelo serviu de referência para diversas outras agremiações, como Andaraí, Carioca e Paracambi. Fomos pioneiros na publicidade em camisas, com a estampa do losango da fábrica em 1949, e protagonizamos a primeira transmissão de uma partida de futebol pela televisão no Brasil, em 1950, um confronto entre Bangu e Tupi, exibido em uma vitrine em Juiz de Fora.”

“Nosso histórico vai além: fomos pioneiros na publicidade em estádios, ao fechar um acordo em 1915 para exibir cartazes de filmes no muro do campo, e também alcançamos feitos internacionais significativos, como ser o primeiro time brasileiro a jogar na Grécia e o vencedor do Torneio de Nova York em 1960. É gratificante manter viva essa história, que muitas vezes não é plenamente reconhecida pelo grande público.” – Molinari.

​Continuamos a caminhada até a Rua Júlio César, e aqui descobrimos mais um pioneirismo: o futebol feminino. Bem antes de a modalidade ser proibida por Getúlio Vargas, as mulheres de Bangu já jogavam sério. E a história não para por aí: após quase 40 anos de proibição, quando o CND finalmente regulamentou o futebol feminino em 1983, bastaram seis dias para que as jogadoras do Bangu, Elzinha e Rose, fizessem história novamente, marcando os primeiros gols femininos exibidos na TV brasileira, no programa Fantástico, da Rede Globo.

Elzinha com o time Radar na Itália, nos anos 80 — Foto: Arquivo pessoal
Elzinha com o time Radar na Itália, nos anos 80 — Foto: Arquivo pessoal

​Passamos pela Praça Guilherme da Silveira — sobrenome que, por si só, resume parte da história do bairro — e chegamos ao nosso destino final: o Estádio Proletário Guilherme da Silveira Filho. Sim, Guilherme da Silveira de novo, como a praça, a clínica e tantas outras coisas pelo bairro… ou, para os íntimos, simplesmente Moça Bonita. Conhecemos o estádio de ponta a ponta!

“Muitas pessoas chegam ao bairro com uma visão equivocada, baseada apenas em estereótipos de carência. Creio que, ao final dessas três horas de visita, elas retornam para casa com uma percepção diferente: a de um bairro civilizado, com uma identidade forte, tradição e um estádio magnífico. Isso é fundamental para fortalecer o orgulho local e conquistar novos adeptos para a marca Bangu. É muito gratificante notar que, em diversos lugares do Rio de Janeiro, vemos pessoas orgulhosamente vestindo a camisa do nosso clube. Queremos que esse sentimento cresça cada vez mais.” – fianlizou Molinari.

Sobre o Rolé Carioca

Mapa do Rolé Carioca em Bangu
Mapa do Rolé Carioca em Bangu

Com uma programação de ações culturais e educativas, o Rolé Carioca mapeia, narra e celebra as muitas histórias que formam as cidades. O projeto conecta pessoas aos territórios da cidade por meio de experiências que unem arte, educação, memória e pertencimento, de forma decolonial e anti-racista.

A plataforma multidisciplinar atua com eventos presenciais, conteúdos digitais, formações, publicações e produtos culturais. Idealizadora do Rolé Carioca, Isabel Seixas contou como nasceu a ideia de contar histórias da cidade.

“O rolé nasce da ideia de contar histórias da cidade, principalmente para os próprios moradores. Eu também sou moradora, eu nasci na Zona Oeste. E uma coisa que sempre me incomodou, foi por exemplo, como que a história que é contada na escola e que você ouve mais, é sempre do centro, enfim. Essa lógica de marginalização de histórias sempre me incomodou. E quando a gente tem a ideia do projeto é muito pensando nisso, em contar as nossas histórias. A gente acredita muito que todo lugar tem história, então nasce essa vontade de fazer com que os próprios cariocas conheçam mais da sua cidade, dos seus bairros. Além de bairros que normalmente não estão nos roteiros tradicionais, sejam lembrados.” – respondeu a idealizadora.

Rolé no futebol

“A gente quis aproveitar esse momento de futebol e Copa Do Mundo pra voltar a Bangu. É um bairro que a gente já tinha feito um rolé, mas que sempre foi muito pedido pelo público. Acho que muito também por essa história da fábrica e do futebol. E aproveitar esse momento pra celebrar esse lugar, que foi aí o berço do futebol pra gente, foi a conexão que a gente fez nesse momento.” – fianlizou Isabel Seixas.

 

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Avaliação do torcedor do Bangu

No fim do Rolé, os participantes puderam participar de uma gincana de perguntas e respostas para receber brindes. Para isso, eles precisaram demonstrar que prestaram atenção nos historiadores, e recontar a história do bairro.

Portanto, a PressFut também quis saber se Bruno, um torcedor banguense estava antenado, e perguntou quais os principais tópicos que ele gostou do Rolé em Bangu.

“No Rolé de hoje pude saber melhor essa questão do porquê da localização da fábrica em relação aos mananciais de água que na época aqui era bem distante da parte urbana da cidade (facilitava a produção têxtil). O nome também, pude saber que era de origem indígena, né, que foi em relação ao Maciço da Pedra Branca, que tem essa linguagem indígena do útang-û. E o terceiro ponto, sobre o Guilherme da Silveira. Sabia muito pouco, que tinha sido o dono da fábrica, mas a a história dele com mais detalhes foi contada ali na na Praça da Guilherme da Silbeira, em frente a estação, também com o nome dele.” – declarou Bruno.

“Eu tenho um padrinho que foi funcionário da Fábrica Bangu durante 35 anos, então isso aí também já ajuda a conhecer bastante coisa e quis vir para isso, calcificar aquilo que a gente já sabe, e ver a importância da história tanto da fábrica Bangu, como a do Bangu Atlético Clube. E ver que o subúrbio tem bastante história e isso tem que ser falado, né. Esse projeto é muito bom.” – contou o torcedor.

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