Gol do Ghiggia, pelo Uruguai, no Maracanazo. Foto: Agência AP.
Futebol, Futebol de Seleções

1950: a maior tragédia de todos os tempos Maracanazo marcou uma geração e mudou completamente a história do futebol brasileiro

Se a Primeira Guerra Mundial atrasou a realização da primeira Copa do Mundo, a Segunda conseguiu algo ainda pior: roubou-nos duas delas.

Assim, apenas em 1950 havia condições financeiras e psicológicas para que o futebol voltasse a reinar, absoluto, entre todos os povos. Inicialmente, a Copa seria disputada na Alemanha, mas evidentemente em frangalhos após a derrota do nazismo, os alemães não tinham a menor condição de arcar com todas as vultosas quantias necessárias, tampouco estado de espírito para receber delegações de nações que, em muitos casos, haviam tentado destruir durante o conflito.

O Brasil, mesmo longe de nadar em dinheiro, se candidatou e ganhou a disputa. O compositor Ary Barroso, então vereador no Rio de Janeiro e amigo pessoal de Mário Filho, apresentou um projeto para que um estádio fosse construído no bairro do Maracanã, no terreno do antigo Derby Club, onde se realizavam corridas de cavalo. Para tanto,construiu nada menos do que o maior estádio do mundo, batizado de Jornalista Mário Filho, mas mundialmente conhecido como Maracanã (nome do bairro onde se situa), no Rio de Janeiro,mas o que poucos sabem é que o famoso estádio não seria construído onde foi.

Carlos Lacerda, foi totalmente contrário à ideia por razões políticas e financeiras. Como líder oposicionista na Câmara dos Vereadores, ele criticou os altos gastos públicos da prefeitura e propôs um projeto alternativo mais barato e modesto, com capacidade para 60 mil pessoas na Zona Oeste(em Jacarepaguá).

A Copa do Mundo

O Selecionado Nacional, comandado por Flávio Costa, era fortíssimo e deu um verdadeiro baile em quase todos os adversários. Apesar do empate com a Suíça em São Paulo, no Pacaembu (1 x 1), goleadas sobre México (4 x 0), Suécia (7 x 1) e Espanha (6 x 1) deixaram os brasileiros certos de que ganhariam, enfim, sua primeira Copa do Mundo. A excelente campanha, por sinal, garantiria a taça com apenas um empate diante do Uruguai. Por isso, na véspera da partida decisiva, os jogadores brasileiros já posavam para fotos com a faixa de campeão no peito.

Exatos 199.854 torcedores, sendo 173.850 pagantes, assistiram à grande final naquele inesquecível 16 de julho de 1950 (até hoje, nenhum outro jogo de futebol teve tantos espectadores _in loco_). Depois de um empate sem gols no primeiro tempo, Friaça levou o estádio à loucura aos 13 da etapa final, abrindo o placar. Aos 22, Schiaffino empatou o jogo, mas, como dissemos, o empate nos favorecia. Porém, aos 35, Gigghia desceu livre pela direita, chutou forte, cruzado e rasteiro, e colocou a bola entre o goleiro Barbosa e sua trave esquerda.

Quando o inglês George Reader apitou o fim do jogo, há quem diga que nunca antes se presenciara um silêncio tão estarrecedor em um campo de futebol. Aquela derrota do Brasil, sem dúvida a mais dolorosa de toda a história do nosso futebol, passou a ser ironicamente chamada pelos uruguaios de “Maracanazo”.

Gigghia calou mais de 200 mil pessoas no Maracanã ao marcar o gol do bi mundial do Uruguai, em 1950

A história de Friaça: o estado de letargia que tomou conta dos jogadores

A pós derrota era imensurável. Uma das histórias mais bizarras foi protagonizada pelo ponta-direita Friaça. Segundo contou várias vezes, depois do jogo ele voltou aos vestiários do estádio de São Januário, no bairro de São Cristóvão, onde o Brasil se concentrara durante toda a Copa, para pegar seus pertences e retornar à pequena Porciúncula/RJ, sua cidade. Mas sofreu um apagão, uma ausência, e quando voltou a si estava deitado debaixo de uma jaqueira no município de Teresópolis, distante 250 km do seu destino. A data? 18 de julho de 1950, ou seja: dois dias após a fatídica derrota no Maracanã. Como e por que ele foi parar na serra fluminense, Friaça nunca soube dizer.

Sandálias da humildade:

Além dos finalistas, a primeira Copa do Mundo após a paralisação devido à Segunda Guerra Mundial contou com a participação de outras 11 equipes. Contudo, nenhuma despertou mais atenção do que a Inglaterra, e o motivo era simples: considerando-se os “inventores” do jogo, os ingleses simplesmente não quiseram participar de nenhuma das três edições anteriores por terem certeza de que eram infinitamente superiores a todas as demais seleções.

Toda a soberba costuma ser punida de forma exemplar. E foi o que aconteceu: os ingleses até que se saíram bem na estreia, derrotando o Chile por 2 a 0, no Maracanã. Mas daí em diante só perderam: A partida entre Inglaterra e Estados Unidos ficou conhecida como o “Milagre de Belo Horizonte”, pois de um lado havia a seleção inglesa carregando a autoconfiança de ser a “inventora do futebol” e uma das grandes favoritas ao título. Do outro lado, os Estados Unidos que eram formados por um elenco totalmente amador, composto por jogadores com trabalhos comuns na época — como lavadores de pratos, carteiros e motoristas funerários.

11 contra 11

Durante os 90 minutos, a Inglaterra dominou a posse de bola e pressionou incessantemente a defesa americana, criando dezenas de chances claras de gol. No entanto, o goleiro Frank Borghi, que era motorista funerário na vida real, teve uma atuação histórica e parou o poderoso ataque inglês. Aos 38 minutos do primeiro tempo, um cruzamento encontrou a cabeça do atacante haitiano Joe Gaetjens (que trabalhava como lavador de pratos), que desviou para o fundo das redes. A pressão foi grande no segundo tempo, mas os ingleses saíram derrotados em uma partida que é considerada uma das maiores “zebras” da história das Copas.

A surpresa foi tanta que jornais e agências de notícias na Inglaterra acreditaram que havia um erro de digitação ao receber o resultado via telégrafo e, por engano, publicaram que a Inglaterra havia goleado os Estados Unidos por 10 a 1.Este triunfo é até hoje celebrado como um dos maiores choques da história do esporte, provando que o favoritismo no papel nem sempre dita o resultado dentro das quatro linhas. Após essa partida, perderam de novo no Rio de Janeiro (outro 1 a 0) para a Espanha. No fim, acabaram eliminados ainda na primeira fase, já que apenas o campeão de cada grupo — neste caso, os espanhóis — avançava. Realmente quem ri por último rir melhor.

0 0 votos
Article Rating
Inscrever-se
Notificar de
guest

0 Comentários
Mais votado
mais recentes mais antigos