Batalha entre Messi e Mbappé pela artilharia da Copa do Mundo
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Da batalha ao amor: Napoleão de chuteira e a pelota sentimental Recital de Messi e sombra de Mbappé contra Senegal marcam batalha histórica para dois dos maiores artilheiros da história das Copas

França x Senegal: Napoleão de chuteira

Ao fim do primeiro tempo, acreditávamos que assistiríamos a mais uma queda da Bastilha. Ou, quem sabe, a uma nova Batalha de Jilas, dessas em que o improvável resolve afrontar o poderoso e, por alguns instantes, triunfa.

Senegal havia transformado o gramado num campo de insurreição. Cada dividida era um motim. Cada desarme, uma declaração de independência.

A sombra da esperança que pairava sobre os senegaleses. Pairava majestosa. Pairava soberana. E então desapareceu. Voltou pouco depois, mas já transfigurada em pesadelo.

O segundo tempo trouxe outra história.

O que vimos foi uma espécie de Batalha de Logandème. De um lado, o Império Francês, comandado por Mbappé, esse Napoleão de chuteiras. Do outro, um Senegal valente, que resistia como resistem os povos que não aprenderam a se render.

Bastou o árbitro autorizar o reinício da partida para que os franceses revelassem sua artilharia. Pela primeira vez, os canhões rugiram. E cada disparo fazia estremecer as trincheiras que protegiam o gol senegalês.

Mesmo assim, Senegal não se curvou.
Upamecano trava chute de Sarr no jogo entre França e Senegal • Foto: Dan Mullan/Getty Images
Upamecano trava chute de Sarr no jogo entre França e Senegal • Foto: Dan Mullan/Getty Images

Lutou de peito aberto, com a insolência dos que compreendem que a derrota sem luta é pior do que a própria derrota. A cada ataque francês, a impressão era a de que o adversário possuía mais um canhão escondido atrás da colina. Quando um disparo cessava, outro começava.

E Senegal? Senegal combatia como um exército antigo. Parecia armado apenas com escudos de madeira e lanças de ponta de cobre. Ainda assim, por um instante glorioso, rompeu as muralhas francesas e feriu o Império. O golpe não foi mortal, mas bastou para incendiar as arquibancadas.

Ao fim, havia algo de grandioso naquela resistência. Porque existem derrotas que humilham. E existem derrotas que engrandecem. Senegal pertenceu à segunda categoria.

Quanto ao Napoleão de cuteira, cabe ao destino nos dizer se haverá um capitão inverno para o novo conquistador.

Argentina x Argélia: Pelota sentimental

Messi marca hat-trick contra a Argélia. Photo by Tom Weller/picture alliance via Getty Images)
Messi marca hat-trick contra a Argélia. Photo by Tom Weller/picture alliance via Getty Images)

Acredito que a bola tenha por Lionel Messi um apego sentimental. Talvez soubesse que aquelas estariam entre as últimas vezes em que seria acariciada por seus pés, em uma Copa do Mundo. Talvez soubesse que se aproximava o fim de uma convivência extraordinária com aquele que a fez experimentar coisas que nenhuma outra bola ousou sonhar.

Por isso ela não queria deixar os pés do maestro. E quem somos nós para julgar a coitada? Que ser humano, sabendo que lhe restam apenas alguns abraços na mãe, os desperdiçaria com facilidade?

Se o cachorro é o melhor amigo do homem, a pelota encontrou nos pés de Lionel Messi um amigo íntimo. Um confidente. Um companheiro de aventuras. E talvez por isso o procurasse durante todo o jogo, como quem procura abrigo num velho lar.

Ontem não assistimos a um espetáculo de vinte e dois homens. Assistimos ao recital de um único artista. Foi o show solo de Lionel Messi, a abertura melancólica e grandiosa de sua turnê de despedida.

E a bola, essa namorada fiel, parecia saber disso antes de todos nós.

Eis a verdade, assim que Messi pisou em campo, a partida estava fatalmente encerrada. Jogadores, bandeirinhas e torcedores poderiam muito bem ter ido para casa. Tudo o mais era mero detalhe.

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