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Irã x Nova Zelândia: Pelada Luxuosa
A fase de grupos da Copa do Mundo tem sido a via-crúcis dos tediosos fãs do chamado “futebol moderno”. E o Getsêmani dos apostadores. Se o animado Irã x Nova Zelândia não agradou. A esses eu digo, são fãs de uma ideia de futebol, e não do esporte em si, que vai muito além das táticas e dos dogmas do futebol.
O idiota brada
— Que pelada feia!
Já o apaixonado pelo futebol responde
— Uma pelada de luxo!
No divertido 2 a 2 entre iranianos e neozelandeses, as ovelhas da Oceania mostraram que não se impressionam com rankings da FIFA. Olhou para a hierarquia do futebol mundial com o mesmo respeito que um vira-lata costuma dedicar aos brasões da nobreza. Nenhum. O futebol, no fim das contas, continua sendo um retângulo verde com vinte e dois homens, um árbitro e auxiliares.
Durante noventa minutos, os dois times trocaram golpes como pugilistas que desprezam a prudência defensiva. Vinha o jab, voltava o cruzado. Respondia-se com um gancho. A réplica era um direto no queixo.
Vos digo que Irã e Nova Zelândia nos ofereceram uma parábola futebolística. Mostraram que existe vida fora dos tratados táticos e dos seminários de futebol. Mostraram que a imprevisibilidade continua sendo a maior virtude do jogo.
Enquanto aos tediosos sua glória está em bancar o erudito. Ele assiste ao espetáculo com a testa franzida, procurando defeitos, enquanto a bola corre solta diante dos seus olhos. Quer transformar o futebol numa tese de doutorado quando, muitas vezes, ele é apenas uma bela e gloriosa confusão como o dia a dia de muitos.
E talvez seja justamente por isso que o futebol continue sendo o mais humano dos esportes.
Espanha x Cabo Verde: a Muralha Azul

Haveríamos de assistir a mais uma goleada europeia nesta Copa. Pelo menos era o que juravam os palpiteiros das bets, esses profetas das apostas.
— Será 7 a 1, como fez ontem a Alemanha.
— Não será de 7. Haverá de ser 5 a 0.
Eis que o futebol, esse canalha, resolveu desmoralizar todos eles.
Prevaleceu um dos mais heroicos 0 a 0 que os gramados já testemunharam. Ao soar do apito, a muralha de corais cabo-verdiana ergueu-se diante da Espanha como um monumento. Os toureiros vieram certos de que domariam tubarões com a mesma facilidade com que enfrentam touros. Saíram com a vaidade ferida.
Não houve o tão esperado espetáculo espanhol. Em verdade vos digo, os espanhóis pagaram ingresso para assistir ao show particular de Abuelita. O goleiro transformou-se numa dessas figuras que só a Copa do Mundo produz. Liderou a muralha azul e repeliu, uma a uma, as estocadas espanholas.
A barreira resistia. Resistia com a insolência dos pequenos que se recusam a cumprir o papel que lhes foi escrito pelos poderosos. E os toureiros, acostumados aos aplausos, começaram a experimentar algo raro, a frustração.
Inúmeras vezes avançaram. Inúmeras vezes chutaram. Inúmeras vezes imaginaram o gol. E inúmeras vezes viram suas esperanças morrerem na muralha de corais que guardava o gol de Cabo Verde, abuelita mais uma vez.
Ao fim, o placar anunciava um melancólico 0 a 0. Melancólico para os idiotas da objetividade, que enxergam no futebol apenas números e estatísticas. Mas o que se viu foi outra coisa. Cabo Verde não empatou com a Espanha. Cabo Verde enfrentou o destino e arrancou dele uma concessão.






