Alojamento Atlético Goianiense/Imagem ilustrativa
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Atleta de 13 anos que representava o Atlético-GO denuncia assédio em alojamento durante campeonato juvenil Em nota, o Atlético-GO informou que repudia qualquer forma de abuso e condena atos contra menores

A família de um atleta de 13 anos, que foi emprestado ao Atlético Goianiense, denuncia que o adolescente foi vítima de assédio em um alojamento improvisado durante um campeonato em Coronel Macedo, no interior de São Paulo. Em depoimento para a PressFut, a madrasta do jogador disse que, além de sofrer assédio sexual, o enteado foi coagido por um suposto diretor do clube.

Para preservar a identidade do menor de idade durante a matéria, o chamaremos de Enzo, um nome fictício para a vítima.

“Meu filho sofreu assédio sexual dentro de um alojamento do Atlético Goianiense. E não foi só um assédio sexual. Ele sofreu assédio moral, xenofobia, a minha colaboradora sofreu machismo e ele ainda foi coagido por um homem que se diz diretor do clube.” – Camila Marques, madrasta de Enzo.

O convite

Enzo tem 13 anos, mora no Rio de Janeiro, e joga em uma escolinha de futebol na Zona Oeste do Rio. Após uma ligação de Wagner, identificado como diretor do Atlético Goianiense, o treinador da escolinha de Enzo selecionou o jovem e mais dois adolescentes para completarem o time da escolinha do Atlético-GO em um campeonato em Coronel Macedo, no interior de São Paulo.

Após uma tentativa frustrada de estarem presentes no campeonato, os responsáveis pelos jovens selecionaram uma colaborada de confiança das famílias, para acompanhar os meninos junto com responsáveis do clube.

Com passagem, alimentação e alojamento pagos pelas famílias dos atletas, a colaboradora Jane e mais dois responsáveis do clube foram com Enzo e os outros dois atletas para São Paulo na noite do dia 10 de janeiro. Quase 24 horas depois, na noite do dia 11 de janeiro, eles chegaram no alojamento instalado na cidade de Coronel Macedo, onde acontecia o campeonato.

Assédio moral

Ônibus do Atlético-GO utilizado no campeonato juvenil.
Ônibus do Atlético-GO utilizado no campeonato juvenil.

No dia seguinte, 12 de janeiro, Camila acorda com uma ligação do treinador da escolinha de Enzo, dizendo que ela precisava tirar, imediatamente, a colaboradora da família do alojamento. Segundo ele, Jane teria sido expulsa e não tinha para onde ir após chegar alcoolizada e fumando de madrugada dentro do alojamento. Em choque, Camila ligou para a colaboradora na qual confia durante anos. Jane então negou todas as acusações.

Desconfiando da história, depois de ouvir Jane, Camila pediu para falar com Enzo. Em resposta, Enzo disse que o que tinha acontecido, na verdade, foi o contrário. Um homem que estaria nitidamente alcoolizado entrou no alojamento onde os jovens estavam dormindo com a Jane, e ligou uma lanterna na cara da colaboradora mandando ela sair. Sem o aparelho auditivo, Jane ficou sem entender o que o homem estava perguntando. Enzo e os meninos então acordaram, e pediram para o homem parar, explicando que ela era representante dos atletas do Rio de Janeiro. Após uma gritaria, o diretor Wagner acordou e, junto com dois treinadores do Atlético-GO, retiraram o homem do alojamento.

Após ouvir a versão do filho, Camila ligou para o treinador da escolinha do Rio de Janeiro, pedindo uma explicação. Foi quando ele encaminhou dois áudios do diretor Wagner, dizendo que realmente não foi bem aquilo que aconteceu. Wagner então admitiu que foi o motorista do ônibus oficial do Atlético-GO, que entrou fumando no alojamento. Todavia, após a “vergonha”, o motorista exigiu que tirassem a colaboradora Jane do local, ou ele iria embora para Goiânia com o ônibus da equipe, obrigando o clube a sair do campeonato. Por isso então, Wagner teria expulsado a colaboradora, Enzo, e os demais atletas do Rio de Janeiro.

Alojamento improvisado

Enzo queria muito disputar o campeonato. A família então, sugeriu pagar a hospedagem de um hotel próximo ao alojamento. Todavia, o clube voltou atrás e negociou com o motorista, oferecendo um novo alojamento para todos os atletas. Em um salão da Igreja da Paróquia de Coronel Macedo, cerca de 300 atletas foram instalados de forma improvisada, para dormir e receber as refeições.

Em uma sala ao lado, dormia o cozinheiro Lucas, com cerca de 40 anos. Na chegada dos atletas, Lucas elogiou o corpo “musculoso” de Enzo, que até 2025, aos 13 anos, possuía uma estrutura óssea de uma criança de 8 anos de idade. Instruído pela família, Enzo se afastou do cozinheiro.

Entretanto, durante a madrugada, o menino sentiu vontade de ir ao banheiro. Mas com medo, segurou até o limite. Ele então levantou, mas levou o celular por precaução. Ao chegar no corredor, viu que o mesmo cozinheiro estava andando atrás dele. Enzo então correu e se trancou na cabine do banheiro. Mesmo assim, Lucas foi atrás e o assediou falando frases de cunho sexual.

Igreja de Coronel Macedo
Igreja de Coronel Macedo. Foto: Jose Reynaldo da Fonseca

“Ele disse que morou 14 anos no Rio de Janeiro e namorou um traficante muito conhecido no Complexo do Alemão.” – contou Enzo.

O menino então, resolveu começar a gravar a conversa sem que Lucas soubesse. Durante os sete minutos de áudio, que foi enviado para a Polícia Civil do Rio de Janeiro, o cozinheiro assedia Enzo com frases e perguntas de cunho sexual. Quando percebeu que o homem se afastou, Enzo saiu da cabine e correu de volta para o alojamento.

Quando voltou para casa, no dia seguinte, o menino mostrou o áudio e contou para a família o que tinha acontecido. Inclusive, que quando foram expulso do primeiro alojamento, Wagner o coagiu o mandando ficar quieto e dizendo que se ele contasse o que aconteceu naquela madrugada – do motorista bêbado – ele iria “se ver com ele”.

Posicionamento do clube

Ao procurar o Atlético Goianiense e pedir a demissão do Wagner, do motorista e do cozinheiro, eles alegaram que não havia vínculo com o clube.

Em nota, o Atlético informou que repudia, com a máxima veemência, quaisquer atitudes de cunho homofóbico, racista, machista ou xenofóbico, e condena abominavelmente qualquer forma de assédio moral ou sexual contra crianças e adolescentes. Mas disse que o convite para o atleta disputar a referida competição partiu de umas das suas escolinhas franqueadas, sendo que o responsável legal por esta unidade estava presente no local e acompanhando a delegação.

Informou ainda que, embora o clube não possua ingerência administrativa direta sobre a gestão cotidiana das unidades franqueadas, inclusive participação em torneios, exigiram destas parceiras o mais alto padrão de cuidado, segurança e respeito no trato com menores de idade, condizente com a história e os valores da instituição.

Ao tomar conhecimento das denúncias narradas pela responsável pelo menor, que envolvem relatos de assédio, expulsão de alojamento e condutas inapropriadas por parte de terceiros, o Atlético Goianiense informou que agiu prontamente. O Clube designou-o seu Vice-Presidente Executivo, e toda a estrutura do seu Departamento de Psicologia, para atuar na apuração dos fatos, acolher a família e prestar todo o suporte necessário neste momento delicado. Por fim, o Atlético Goianiense reafirmou solidariedade ao atleta e seus familiares e disse que continuará acompanhando o caso com o rigor que a situação exige.

Caso de polícia

Indignados, os familiares de Enzo denunciaram o caso na delegacia de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde o menino de 13 anos foi ouvido. Em nota, a Polícia Civil informou que, de acordo com a 43ª (Guaratiba), a comunicante foi ouvida na delegacia e oitivas especiais foram realizadas com a vítima. Por se tratar de um fato ocorrido no estado de São Paulo, o caso foi encaminhado para a Polícia Civil paulista, por meio da Divisão de Capturas e Polícia Interestadual (DC-Polinter).

A Polícia Civil de São Paulo informou que o caso citado foi registrado como crimes contra crianças e adolescentes na 43ª Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro e encaminhado à Delegacia de Coronel Macedo, que realiza diligências visando esclarecer os fatos. Demais detalhes serão preservados por envolver menor.
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