Rodrigo Capelo.
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Rodrigo Capelo: Copa América não se justifica nem do ponto de vista financeiro

Alexandre Marques
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Em entrevista exclusiva para a PressFut, o jornalista Rodrigo Capelo, especializado em negócios do esporte, fala sobre: como lida com o feedback dos seus famosos estudos financeiros entre clubes, como funciona o mercado de investimentos no futebol, a explosão de investimentos milionários entre clubes europeus, a falácia da importância do faturamento da Copa América no Brasil e sobre seu livro, recém lançado, “O Futebol Como Ele É”.


Antes de começarmos essa entrevista, gostaria que você se apresentasse, falasse um pouco dos trabalhos que você vem desenvolvendo e sobre sua formação como jornalista. 

Rodrigo Capelo: Fala, Alexandre, obrigado pelo convite. Eu sou Jornalista, formado em Comunicação Social pela Universidade de Santo Amaro, eu não sou contador, eu não sou economista, eu não tenho essas graduações, diferente do que algumas pessoas sugerem por causa do trabalho que eu faço. E elas sugerem isso porque eu cubro a parte de fora do campo do futebol, digamos assim. Então tudo que está no entorno me interessa, seja parte econômica, parte política, marketing esportivo, direito esportivo, enfim, tudo aquilo que está no entorno me interessa. E um dos trabalhos que eu faço que têm uma certa repercussão é da análise financeira baseada nos balanços dos clubes, então eu pego aqueles números todos, aquelas regras contábeis, eu entendo aquilo e explico pro torcedor como tá a situação financeira do clube dele. Por isso esse tipo de confusão sobre minha formação é meio comum. 

Falando sobre esses balanços que você analisa e pesquisa a fundo para trazer aos torcedores, como você diz, como você lida quando os torcedores – os apaixonados por futebol – não conseguem interpretar esses balanços, muitas das vezes confundindo a função do jornalista e também confundindo os números econômicos apresentados? Fale um pouco sobre como você tenta passar esses números para o público da forma mais clara possível para que os torcedores entendam?

Rodrigo Capelo: Eu tenho um desafio razoavelmente difícil que é o de trazer informação que seja útil para quem está no mercado do esporte, porque eu sei das muitas partes envolvidas. Então, os clubes, as federações, os patrocinadores, as agências de marketing esportivo, advogados, escritórios, todas essas partes envolvidas consomem o que eu escrevo e eu quero que elas consumam. Então eu tenho que ter uma linguagem técnica correta, não posso me equivocar em relação ao que é lucro e o que é receita, então têm que ter correção técnica. Mas, ao mesmo tempo, eu estou falando com torcedores que não têm a menor obrigação de saber nada disso, que não têm costume de ler o caderno de economia e nem nada do tipo. Então também precisa estar didático, e isso torna as vezes até um pouco chato porque eu repito muito alguns conceitos. Então tem que estar didático e tem que estar correto.

O que eu faço: eu tento sempre me valer de comparações, então quando eu for falar de dívida eu tento fazer uma comparação com o cartão de crédito da pessoa para ela colocar na vida e fazer um paralelo, vou tentando usar aquilo que o jornalismo indica para a gente de paralelos, comparações, de linguagem acessível e evitar termos rebuscados, evitar algumas coisas do mercado, tipo Ebitda. O Ebitda eu sei o que é, até conseguiria calcular também, mas adianta eu colocar o Ebitda na história, tendo que explicar pro torcedor que o Ebitda é o resultado antes de amortizações, depreciações e impostos? Não faz sentido. Então eu tento sempre simplificar, manter a linguagem didática, mas, logicamente sempre com correção. Eu não posso falar besteira. 

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Tabela do ranking de transparência desenvolvido por Rodrigo Capelo no ano passado. Imagem: Reprodução/Blog do Rodrigo Capelo
Ainda nesse fio das avaliações que os torcedores passam para você, eu gostaria que você falasse um pouco sobre o levantamento rankeado de transparência gestoriais dos clubes que você publicou em seu blog no GE, nos últimos dias. Eu vi que ele gerou muitos comentários revoltosos de alguns torcedores e também algumas reações partindo de alguns dirigentes, eu vi que você comentou sobre isso no seu Twitter, sobre um dirigente financeiro do Corinthians que se propôs a ajudar ao clube ter um levantamento mais transparente quando fosse fazer o balancete do Corinthians. Na sua perspectiva, qual peso têm esse trabalho de transparência dos clubes de modo que ele afete no melhor trabalho das diretorias?

Rodrigo Capelo: Esse estudo surge quando o Cesar Grafietti, economista responsável pelo trabalho de finanças no Itaú BBA, me disse “olha, por que você não coloca um ranking para qualificar os balanços, para mostrar quais balanços são mais confiáveis, quais são mais transparentes?” e eu achei essa ideia excelente porque transparência é uma pauta que eu gosto de apoiar, eu acho que no jornalismo a gente pode exercer militância quando essa militância está envolvida em idéias e em valores.

Eu acho que transparência e confiabilidade são valores que vale a pena a gente tentar estimular. E como o brasileiro é doido por ranking, gosta de ranking, gosta de lista e tudo o tempo todo, então eu virei o feitiço contra o feiticeiro colocando um ranking de transparência e confiabilidade que basicamente é um levantamento com 10 perguntas objetivas, uma delas divididas em mais outras 10 perguntas – 10 subitens. Em que: se você publica o seu balanço na data correta? 1 ponto. Você publica balancetes com visões parciais das finanças mensalmente ou trimestralmente? mais 1 ponto. Você publica o orçamento do ano no seu site? Esses itens não são obrigatórios, só o balanço anual é obrigatório, os outros não. Então quem publica pontua e no fim das contas você têm uma métrica ali que é limitada, têm alguns problemas, e não são problemas meus, são de concepção mesmo, têm algumas questões que são mais complexas que todo levantamento vai ter uma limitação.

Mas, o ponto é: isso repercutiu muito bem, porque o Bahia no ano passado quando fez pela primeira vez ele pediu pra entender melhor, porque eles queriam ser mais transparentes e estavam preocupados com o assunto, o América Mineiro fez a mesma coisa, dessa vez, o Corinthians com o diretor financeiro que me mandou mensagem dizendo que tava preocupado com isso e que tava mais engajado para melhorar esses itens. E aí todo mundo ganha. Ganha torcedor, ganha o mercado, ganha a mídia, ganha todo mundo, então é um trabalho que eu gosto muito de fazer.

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Ao apresentar esse ranking de transparência no Redação SporTV, você citou como exemplo o Athletico Paranaense como clube que não se preocupa muito em publicar uma transparência de seus gastos e de seus balancetes de forma ampla. Como você avalia essa decisão não só do Athletico Paranaense, mas de qualquer outro clube em relação a efetividades dos planos do clube em questão de melhorar, sabendo que, por exemplo, um analista de fora como você não vai poder ter uma interpretação que possa até ajudar o clube?

Rodrigo Capelo: A gente pode olhar pra essa questão de diferentes maneiras, por um lado você vai encontrar muita gente que vai te dizer assim: pera aí, mas os stakeholders que interessam ao Mario Celso Petraglia, que é um dirigente que, embora esteja numa associação, dirige ela como uma empresa privada. Ele é um proprietário informal do Athletico Paranaense, os stakeholders que ele tá preocupado não são os torcedores comuns que acompanham o balanço, o balancete e o orçamento. Ele está preocupado com as instituições financeiras, com o mercado publicitário, com a reputação do clube, com o branding e tal.

É uma explicação que faz sentido e temos que ser muitos justos, o Athletico Paranaense não se importa em publicar coisas além do que manda a lei. Itens adicionais, como os balancetes, como o orçamento, esse tipo de iniciativa o Athletico Paranaense não tem, mas ele publica os balanços atuais, e esses balanços são muito bem feitos, são auditáveis, eles são divulgados de maneira completa, então também não dá pra fazer essa crítica tão abrangente assim, e é uma explicação que é válida.

Agora, por outro lado, eu gosto sempre de lembrar que o futebol não trata de entidades que são meramente corporativas – vamos usar essa palavra e espero que você entenda o que eu quero dizer – administrativas, sabe? financeiro. Não, você também tem uma parte social. Você também tem uma questão que tá representando a paixão de milhares e milhões de pessoas, e essas pessoas quanto mais elas souberem em relação ao próprio clube melhor, então a transparência também é importante para ela atender essa pessoa, o torcedor.

Eu acho que é uma demonstração de respeito, até às vezes uma demonstração de carinho. Porque é ruim quando você vira para o torcedor e só pede pra ele dinheiro, dinheiro, dinheiro, compra o ingresso, paga a mensalidade, compra o Pay Per View, consume o produto do meu patrocinador, é assim: consumo, consumo, consumo, mas na hora que têm que ouvir esse torcedor e deixar que ele participe de alguma maneira, nem que seja vendo o que tá acontecendo por meio da transparência dessas documentações financeiras, não incluí-lo me parece errado.

Então, enfim, uma resposta longa com dois pontos de vista que eu acho que vai agregar mais, eu tendo a gostar mais do segundo, eu gosto mais de quem é mais transparente, mas eu não condeno totalmente o Mario Celso Petraglia, especificamente, pela falta de iniciativa em relação à alguns documentos financeiros. 

Petraglia diz que perícia da FGV não aponta nenhum sobrepreço nas obras da Arena da Baixada | athletico-pr | ge
“O proprietário informal do Atheltico Paranaense”, Mário Cesar Petraglia. Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo
No começo desse ano, você deu uma declaração, que gerou espanto entre alguns torcedores e até entre alguns jornalistas, falando que hoje vale bem mais uma pessoa ou uma empresa realizar investimentos no América Mineiro ao invés do que no Botafogo, clubes de tradições opostas, mas também de realidades financeiras totalmente opostas, você falou para avaliarmos os quesitos financeiros. Além dos quesitos de transparência, quais fatores influenciam para um investidor chegar no clube e depositar ali seu dinheiro, sua gestão e etc?

Rodrigo Capelo: Eu baseei esse raciocínio no que acontece com mais frequência no futebol europeu, que é o lugar onde têm uma quantidade maior de transferências acontecendo, acontece há mais tempo e basicamente, um investidor – alguém que quer ganhar dinheiro – compra um clube de série C, série B, faz investimento nesse clube, mexe na gestão e melhora o seu desempenho. Esse clube sobe para a primeira divisão eventualmente, com isso as receitas dele deixam de ser ínfimas. Porque direito de transmissão é algo que no mundo inteiro fica mais relevante na primeira divisão, chegou na primeira divisão e fatura muito mais, vale muito mais e aí esse proprietário, esse investidor, ele revende o clube por três vezes o valor que ele pagou.

Essa é a ideia, né? Então, o que eu fiz naquele dia, foi dizer, olha, se você está pensando nessa compra e venda de clubes, porque o Botafogo tá tentando fazer no Botafogo SA, uma sociedade anônima, tá tentando captar investidores. Se for pensar meramente pelo lado financeiro, faz mais sentido o América Mineiro, porque é um clube que acabou de chegar na primeira divisão. Então, ele acabou de se valorizar. É um clube que tá sempre num sobe e desce de primeira e segunda divisões, ele precisa de investimento para se consolidar na primeira. Ele tem categorias de base que revelam jogadores com mais frequência, ele tem estádio, ele tem centro de treinamento, ele tem patrimônio, é um clube mais fácil de trabalhar, né? É mais fácil de aprovar esse tipo de negociação. Embora, mesmo assim, não seja fácil, só tô dizendo que é mais fácil que o Botafogo.

Então, foi basicamente uma constatação de que, olha, se a gente entender do ponto de vista financeiro, como é que se faz na Europa, aqui no Brasil, seria assim, faria mais sentido ir atrás do América. Aí, claro, um monte de gente ficou ofendida porque “como eu ouso falar do clube de Garrincha e Nilton Santos”, só que eu não estou falando de tradição, não estou falando de de jogadores, não estou falando de instituição, eu tô falando de negócio e o negócio é esse.

Capelo, falando agora sobre clubes que estavam em situações difíceis também administrativas, no começo da última década, mas que conseguiram ressurgir, se estabelecer financeiramente. Palmeiras e Flamengo ganharam notabilidade não só por títulos, mas também por essas gestões eficientes. Segundo os seus trabalhos analisando esses clubes, você vê que durante essa pandemia, onde não tem torcida, esses clubes continuam evoluindo, ou então, em estabilidade econômica? ou você enxerga que um desses dois, ou até mesmo os dois estão vivendo um planejamento ilusório ao arriscar muito seus investimentos com garantias de títulos que muitas vezes não são garantidos? Até porque também não temos público nos estádios que prejudica muito, Palmeiras e Flamengo que são times de massa.

Rodrigo Capelo: É, os efeitos da pandemia existem, né? Principalmente esse, competições suspensas, depois recomeçadas com portões fechados. Isso tira a receita de bilheteria. Mas me parece que isso vai causar impacto no futebol brasileiro por dois, três anos, tratando dos clubes organizados, aqueles que estão muito desorganizados e que tão destrambelhados, aí é outra história.

Então, eu acho que não é a pandemia que vai vai arriscar esses clubes.O que pode acontecer é o que, de certa forma, aconteceu com o Palmeiras, é o que começa acontecer com o Flamengo, que é o de ter expectativas muito mais altas. Porque agora não são mais dois clubes que estão se reestruturando como aconteceu na década passada, são dois clubes que já tem uma capacidade financeira maior, que querem ganhar títulos, tem torcedor, tem conselheiro, tem associado, tem imprensa em cima enchendo o saco. Então, esses clubes eles tem uma uma pressão por resultado agora que é diferente. E o risco é gastar mais do que pode. E aí é recomeçar aquele ciclo de prejuízos, dívidas, acumula, acumula, acumula e de repente acumulou mais do que deveria. Esse é o risco que o Flamengo e o Palmeiras tem que tomar cuidado pra não correr.

Falando agora sobre o aspecto financeiro que impacta clubes, mas num aspecto mundial, dessa vez. Na última final da Champions que aconteceu no final do mês passado, tivemos Chelsea e Manchester City se enfrentando, o Chelsea tem até uma certa tradição na Inglaterra, mas são dois clubes que nunca tiveram um grande impacto na Europa como tem tendo, desde os investimentos feitos pelos donos dos dois clubes. Como você vê essa mudança de patamar na Europa, onde clubes grandes também dão espaço para clubes novos, mas com grandes investimentos para lutar. Você vê como uma reforma entre os grandes do futebol através desses investimentos?

Rodrigo Capelo: Um assunto que me interessa muito é o da desigualdade financeira no futebol. Porque o que a gente tem visto acontecer no mundo todo é um processo de concentração de riqueza e de poder. Ao longo das décadas, cada vez menos clubes têm acesso a mais dinheiro, isso vem desequilibrando a competição, né? Você tem clubes ingleses que tinham conseguido desempenhos tais no campeonato inglês e que não conseguem mais, assim como se tem clubes brasileiros que tinham também desempenho, mas não tem mais.

Então, esse é um assunto que me interessa muito. O que eu reflito aqui é que quando a gente olha para o futebol europeu, você tem lá uma uma nata, uma casta, de uns quatro clubes que teriam, naturalmente, uma condição financeira privilegiada: Real Madrid, Barcelona, Manchester United e Bayern de Munique. Esses quatro sempre estiveram na frente daquele ranking da Deloitte, eles sempre estiveram entre os primeiros. Então, estaria entre eles.

O que aconteceu nos últimos quinze, vinte anos, é que apareceram investidores com propósitos alheios ao futebol, porque não está se tratando mais de um investimento de um sócio, de uma mecenas, ou então, de uma arrecadação baseada na torcida. Não, você está falando do dinheiro de um bilionário russo, você tá falando do dinheiro de um estado, dos Emirados Árabes, que tá fazendo parte do jogo e que está colocando investimentos muito mais altos, contratando jogadores e conseguindo desempenho esportivo, tanto que o Chelsea já chegou a mais um título de Liga dos Campeões e o City conseguiu vários títulos de Liga Inglesa, de Premier League, neste período.

Eu acho que é bom ou é ruim? Cara, é difícil fazer um juízo de valor assim tão simples. O que eu acho é que é uma realidade inevitável, está acontecendo, vai continuar acontecendo, o importante é que a gente entenda, porque acontece e quais são os motivos. O que leva eles a fazer esse tipo de investimento? E aí tem várias facetas possíveis.

Dono do City tem iate de R$ 3 bi, é sócio da Ferrari e amigo de DiCaprio - Fotos - R7 Fora de Jogo
O Sheik Mansour bin Zayed Al Nahyanm, dono do Manchester City, comprou o clube em 2008. Foto: Reprodução/Instagram
Falando sobre como as federações enxergam esses investimentos pesados nesses clubes como Manchester City, Chelsea, como eu citei, e o próprio Paris Saint-Germain. Você acredita que a FIFA e também a UEFA tem fiscalizado de maneira rigorosa, de maneira correta como esses investimentos têm chegado? E também, como o funcionamento da regra do Fair Play financeiro têm sido essencial, ou então, falha no aspecto dos investimentos desses clubes?

Rodrigo Capelo: Existe uma preocupação em relação ao dinheiro que chega desses investidores de clubes, de bilionários que pegam os clubes para fazer deles os seus brinquedos, porque quando você injeta muito dinheiro de uma vez, você causa inflação no mundo do futebol. Então, um clube compra um jogador por um valor muito acima de mercado. Para lembrar de um exemplo prático: quando o PSG contratou o Neymar, pagou ao Barcelona duzentos e vinte e dois milhões de euros, uma quantia astronômica, muito mais alta do que qualquer outra transferência da época e aquilo gerou uma série de consequências porque aí o Barcelona tinha que dar a resposta para o torcedor, ele contratou jogadores por valores também mais altos. E aí os clubes que receberam esses dinheiros também gastaram mais e aquilo gerou uma série de custos muito mais altos.

Quando você replica isso algumas vezes, essa inflação ela aumenta os custos dos clubes e eles passam a ter prejuízos. E aí, na esteira disso, surge o Fair Play financeiro em âmbito da UEFA, porque nacionalmente alguns países já tinham iniciativas anteriores. E o Fair Play financeiro vem mais para estimular a responsabilidade, a austeridade, chame como quiser. Bom, o que acontece? Algumas pessoas disseram que isso só estava acontecendo porque a UEFA estava fazendo o jogo dos clubes mais ricos, do Manchester United, do Barcelona, do Real Madrid e do Bayern de Munique, porque esses clubes, eles perderiam ali a capacidade deles de contratar os melhores jogadores, eles teriam mais concorrência no mercado. E eu acho que é uma história simplista. Pode ter um pouco disso sim, a gente não pode descartar nada do ponto de vista político dos clubes e é uma tese que faz muito sentido, mas eu tendo a crer que o Fair Play financeiro ele tem uma uma uma razão de existência muito mais pela saúde do mercado.

Bom, a sua pergunta é exatamente sobre isso, o que acontece é que os clubes, como o City, o PSG, eles encontraram maneiras de burlar essas regras, então, por exemplo, pegando um patrocínio muito acima de uma empresa que faz parte do mesmo conglomerado, que é do mesmo dono, enfim. Eles deram jeitos de burlar esse Fair Play financeiro e a UEFA, infelizmente, foi um bocado maleável na aplicação daquilo. Ficou, realmente, uma mancha.

Tratando agora de um assunto quente, que vem sendo debatido constantemente, tanto nos jornais, como no dia a dia das pessoas. Sobre a Copa América aqui no Brasil, onde o Presidente da República, Jair Bolsonaro já manifestou seu interesse, eu gostaria que você falasse um pouco sobre o aspecto financeiro da possível realização da Copa América aqui. Se seria interessante, se o faturamento daria respaldo para a realização nos modos atuais. Ou se, por exemplo, não seria interessante, mas se houvesse a retomada parcial do público, o faturamento da competição poderia ajudar as federações.

Rodrigo Capelo: A retomada do público no estádio é algo que eu sou absolutamente contra, a gente não tá em condição na América do Sul para fazer isso, não é só no Brasil, e quando a gente olha pras outras linhas de receita, a gente entende a insistência da CONMEBOL em fazer essa competição. O que acontece? A principal receita é direito de transmissão e alguma coisa de patrocínio. Quando a CONMEBOL toma a decisão de fazer a Copa América de qualquer jeito é porque ela não quer perder esse dinheiro, quanto dinheiro a gente tá falando? De cento e vinte milhões de dólares, é isso que tá no orçamento dela, é isso que ela conseguiu na Copa América da edição passada. E para conseguir garantir essa receita, eles vão passar por cima do bom senso, basicamente. Eu não vou falar aqui de ciência, de cientistas, não, de bom senso mesmo, é uma competição absolutamente descartável, é uma competição absolutamente desimportante.

Em termos normais, sem pandemia, “ah que legal a Copa América”. Agora, quando tá tendo pandemia, pessoas estão morrendo, você tem que reduzir riscos, não faz sentido disputar essa competição. E é que nem do ponto de vista financeiro é uma competição que se se justifica, porque esse dinheiro, ele não vai pro clube, ele não vai pro jogador, ele não vai pro funcionário, ele vai pra CONMEBOL. Da CONMEBOL, você pega uma grande parte e fica com ela própria para pagar os próprios custos, os funcionários, o prédio, né? Todos os luxos que tem as federações e confederações do futebol, tem que ser custeado de alguma maneira. Uma outra grande parte, você distribui entre as federações nacionais.

Então, a CONMEBOL dá um dinheiro na mão da CBF, um dinheiro na mão da AFA, na Argentina, Federação Boliviana, Federação Colombiana e etc. E essas entidades funcionam da mesma maneira. Elas gastam dinheiro consigo mesmas. E alguma coisinha com o desenvolvimento do futebol. Então, até por essa natureza delas, pelo fato da consequência financeira da não realização ser muito menor, não tem cabimento fazer a Copa América.

"O futebol como ele é" está sendo lançado pela Editora Grande Área - Divulgação/Editora Grande Área - Divulgação/Editora Grande Área
“O Futebol Como Ele É”, o mais novo livro de Rodrigo Capelo. Imagem: Divulgação/Editora Grande Área.
Pois bem, por fim, Capelo, eu gostaria que você falasse sobre o trabalho que você desenvolveu em seu livro, recém-lançado, “O Futebol Como Ele É”. Você retrata nele narrativas do nosso futebol com argumentos que estruturam aqueles acontecimentos. Gostaria que você falasse sobre como foi seu trabalho de apuração de cada acontecimento relatado no livro. Até porque você relata sobre coisas que aconteceram no passado em uma época em que a transparência dos clubes eram raríssimas. Então, fale mais sobre esse trabalho seu.

Rodrigo Capelo: “O futebol como ele é” é um livro de seiscentas páginas, um milhão e quatrocentos mil caracteres, que eu passei os últimos quatro anos escrevendo. É claro, junto com a minha rotina profissional. Blog, a tevê, rádio, em alguns momentos, revista, emprego, contas e todos os outros problemas de uma vida de alguém comum.

Mas, basicamente, são treze clubes, os fundadores do Clube dos Treze, cujas histórias eu volto, eu revisito para entender como o dinheiro, a política, tudo que está do lado de fora do campo influencia naquilo que as pessoas veem dentro de campo. Tão simples quanto isso, mas com uma estrutura que muito me agradou, porque tem assuntos muito antigos, então eu volto até mil novecentos e quarenta e três para mostrar a finança de um clube como o São Paulo, que é um microcosmo do futebol brasileiro ali, né? Ele tem essa essa serventia. Eu volto no no Pelé, eu volto na época do Garrincha, mas eu também trato de assuntos bastante recentes, como a implosão do Clube dos Treze, a recuperação do Palmeiras, a recuperação do Flamengo, a desigualdade financeira no futebol, direito de transmissão, mudanças de modelo recentes, quais foram os resultados disso, enfim, são vários assuntos diferentes que eu vou contando nesse livro,  que tem uma característica e é bom isso, que isso fique claro, uma característica de um livro de histórias. Ele não é um livro chato de faculdade em que você fica vendo ativo e passivo, receita e despesa. É claro que tem isso, porque é o meu trabalho e eu uso isso como ferramenta para explicar o futebol. Mas tem bem mais do que isso no livro. Acho que, quem ler, vai gostar.

Ouça a entrevista com Rodrigo Capelo no YouTube ou procure pela PressFut em seu agregador de podcast: podcast.pressfut.com

Alexandre Marques

Morador de Nova Iguaçu-RJ, graduando em Jornalismo.
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