Protesto da torcida do Bangu. Crédito: Castores da Guilherme
Futebol, Futebol Nacional

O Campeonato Carioca como parte da política brasileira

Daniel Dutra
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Entender o contexto do Brasil e principalmente do Rio de Janeiro, nesse momento, é muito complicado. Mas o Campeonato Carioca faz inveja não por ser pior do que a política brasileira. Na verdade, o cariocão – ou covidão – é a própria política brasileira.


Inocente foi aquele que pensou que a volta aos treinos não acarretaria na volta aos jogos e consequentemente, na volta do público aos estádios. Tudo articulado com a reabertura dos bares, restaurantes, shoppings, comércio e outras áreas da cidade do Rio de Janeiro. Tudo isso em meio a maior crise de saúde nos últimos 100 anos.

Pior do que isso, é o contexto onde tudo acontece. O Rio de Janeiro é o novo epicentro da pandemia do coronavírus. O estado ainda não saiu da primeira onda e voltou a jogar futebol do lado de um hospital de campanha com pessoas morrendo. Enquanto outros países esperaram a segunda onda, os nossos políticos vão liberando tudo e literalmente dizendo: “e daí? morra quem morrer”.

É dessa forma que o Rio de Janeiro conduz a situação. Entretanto, o campeonato carioca como parte da política brasileira, dependeu também do Governo Federal. Foi com as visitas de Rodolfo Landim, presidente do Flamengo, e Alexandre Campello, presidente do Vasco e novo aliado de Landim, que Jair Bolsonaro, Presidente da República, moveu seus pauzinhos.

Interferência política

Presidentes de Flamengo e Vasco com Bolsonaro.
Rodolfo Landim e Alexandre Campello foram em Brasília pedir para Bolsonaro forçar uma volta do Campeonato Carioca.

A viagem à Brasília rendeu ótimos frutos para a diretoria rubro-negra. Dizendo-se apolítica na hora de condenar a ditadura militar brasileira, onde o irmão do maior ídolo do clube foi torturado, a diretoria do Flamengo foi estreitando seus laços com Bolsonaro. Mas isso não é nenhuma surpresa para o clube que virou instrumento da extrema-direita no país, como bem colocou Breiller Pires, do “El País”.

Depois das visitas intimas, Flamengo e Vasco conseguiram forçar a volta do futebol do jeito que Bolsonaro queria. Faltava apenas o apoio de Witzel, governador do Rio, e Crivella, prefeito da cidade. Nada que uma Polícia Federal batendo na porta do governador, e uma troca de apoios para a releição de Crivella não resolvesse. Assim voltou o Campeonato Carioca, que até pouco tempo, ninguém fazia questão de jogar.

Depois do retorno, foi a vez do Flamengo, sem transmissão dos seus jogos, conseguir uma Medida Provisória para transmiti-los na internet. Dessa forma, intensificando novas emendas sobre os direitos de transmissão no Brasil. Caso os clubes que apoiaram a MP 984, não apoiem uma nova emenda coletiva, ficará cada vez mais nítido que é cada um por si, e o futebol brasileiro no fundo do poço.

Os clubes pequenos não são inocentes

O Campeonato Carioca como parte da política brasileira. Crédito: Castores da Guilherme
A nota contra o Botafogo foi o estopim para a torcida do Bangu protestar contra a diretoria. Crédito: Castores da Guilherme

São coniventes. Mais do que isso, alguns clubes pequenos estão mergulhados em corrupção de forma a fazer inveja em dirigentes dos clubes grandes. O Bangu é o maior exemplo disso. Após ser criticado por Paulo Autuori, técnico do Botafogo, a diretoria banguense soltou uma nota [1] que revoltou a torcida do Bangu [2] [3] mas deixou os rivais do Botafogo sorrindo, como era a intenção. Todavia, a nota não passou de mais um recibo de corrupção.

Rubens Lopes, atual presidente da FERJ, foi responsável por afundar o Bangu em dívidas quando geriu o clube. Atualmente, continua fazendo parte, mesmo estando na presidência da federação carioca. Sua família e seus aliados comandam o clube desde 1989. As eleições não possuem chapas, pois ele mudou o estatuto do clube em 2002. O técnico do Bangu é Eduardo Allax, genro de Rubens Lopes. O time contabiliza apenas duas vitórias em onze jogos.

Contudo, até mesmo quem se pode elogiar por boas administrações nos últimos anos, como o Boavista, consegue de alguma forma falhar com sua integridade. O clube de Saquarema é gerido pela empresa “Pantera Sports”, do ex-jogador e hoje empresário, Donizete Pantera. Aproveitando essa relação com o clube, Renan Donizete, filho de Donizete, é o único jogador do elenco com contrato acima de 1 ano. Desde 2018 no clube, o jogador chama atenção por estar sempre acima do peso e seu contrato ser o único vigente até 2023. Uma espécie de nepotismo que deixa nítido a falta de meritocracia no país.

O começo do fim do Campeonato Carioca?

Após a MP 984, que passa os direitos de transmissão para o clube mandante, a TV Globo encerrou seu contrato com o Campeonato Carioca. Dessa forma, os clubes menores que embarcaram na defesa do Flamengo e dos times que criaram essa MP individualista junto com o Presidente da República, agora estão com seus futuros incertos. Sem as Cotas de TV e sem estrutura suficiente para transmitir seus jogos, a falência é uma realidade possível.

Mais uma vez, o Brasil vai na contramão do mundo e bate palma para uma MP que só prejudica o futebol brasileiro. Emocionados com uma mudança, os torcedores embarcam numa ilusão completamente fora da realidade. Agora, terão que pagar por serviços online também. Entretanto, o término dos estaduais pode acarretar na verdade, em uma evolução do futebol no país.

Cabe a CBF, organizar a disputa nacional criando novas divisões regionalizadas, como acontece na Inglaterra, e integrar esses times que jogam apenas estaduais. Dessa forma, eles não dependerão de três/quatro meses no ano para sobreviverem durante os outros nove meses em que ficam inativos.

Os estaduais são extremamente nocivos para todos os clubes, mas para sobreviver sem eles, os pequenos precisarão de bom senso e de competência da CBF. Para se ter um parâmetro, países como: Inglaterra, Itália e França, possuem mais de dez mil clubes cada. Todos com competições organizadas. No Brasil, temos em torno de setecentos clubes. Mas não conseguimos organizar o futebol de forma nacional.

A importância de Paulo Autuori

Paulo Autuori. Crédito: Vitor Silva/Botafogo
Paulo Autuori fez duras críticas e foi punido por 15 dias pela FERJ. Crédito: Vitor Silva/Botafogo

Inclusive, voltando na nota do Bangu, os motivos foram as denúncias de Paulo Autuori, que tocou no ponto da hipocrisia. Os clubes pediram a volta do estadual pois precisavam de dinheiro, mas o Bangu estava hospedado em um hotel há 25 dias e voltou a treinar de forma “clandestina”, igual o Flamengo. Já a Portuguesa, também citada por Autuori, foi diferente.

A FERJ prometeu que os jogos seriam apenas no Maracanã, no Nilton Santos e em São Januário. De uma hora para outra, ela mudou o protocolo de forma nada transparente e colocou o jogo do Botafogo no estádio da Portuguesa, cheio de obras. Por isso, a crítica de Autuori. Não havia sequer refletores para jogar no estádio, mas de repente, em dois dias, foram instalados os refletores. Mais uma vez, na calada da noite, e até então sem recursos.

Como citado por PC Caju, falta posicionamento na geração atual. Mais uma vez, coube ao Autuori, já consagrado, bater de frente com todo esse esgoto de corrupção e falta de sensibilidade quanto as vítimas da COVID-19. Criticando o autoritarismo da FERJ, ele comprovou isso ao ser punido por 15 dias. Entretanto, o STJD barrou a punição inconstitucional.

O carioca como parte da política brasileira

Campeonato Carioca como parte da política brasileira.
Rafael Martins de Sá divide o Campeonato Carioca com vítimas da COVID-19.

Rafael Martins de Sá, árbitro do jogo entre Portuguesa e Botafogo, é enfermeiro da linha de frente do combate ao coronavírus em um hospital em Maricá. Entretanto, o profissional de saúde deixou o hospital na maior crise do século para apitar um jogo ridículo do inexpressivo campeonato carioca.

Assim o futebol carioca agoniza. Da mesma forma que Governo, federações, confederação e clubes passaram por cima de leis e protocolos com o famoso “jeitinho brasileiro”, a população que vê no futebol um exemplo, começa a adiantar o fim da quarentena. Com os jogos e bares liberados, o Rio de Janeiro parece ter achado a cura do novo coronavírus sem contar para ninguém. Pessoas tomaram novamente as praças e locais públicos. Entregues a própria incapacidade de respeitar a si e ao próximo.

A preocupação para muitos, durou até ver seu time vendendo sua história para jogar futebol. Depois que o campeonato recomeçou, pouco importa a quarentena. A educação brasileira falhou ao longo de toda a história e, obviamente, o futebol é uma ótima massa de manobra para corromper pessoas sem consciência social.

Portanto, está mais do que nítido que tudo não passa de um jogo político para que as coisas voltem ao “normal” enquanto os torcedores vestidos de palhaço e fantoches, batem palma para seu time campeão. Ainda existe bobo no futebol?

Daniel Dutra

Jornalista em formação e apaixonado por esportes. Juntei essas duas paixões para produzir conteúdo e valorizar a comunicação criando um portal para levar informação e gerar oportunidades.
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