Justin Fashanu.
Futebol, Futebol Internacional

Justin Fashanu, vítima de uma paixão hostil

Daniel Dutra
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O primeiro atleta a se declarar publicamente como gay, infelizmente, sofreu represálias. Mais de duas décadas após sua morte, o futebol e o esporte como um todo, continuam sendo ambientes discriminatórios. Contudo, ao entrar para o Hall da Fama do Museu do Futebol Inglês, Justin Fashanu ascende um facho de esperança e inspiração.


Sendo um retrato da sociedade, o futebol e sua torcida guardam consigo uma bitolação que um dia foi apenas ultrapassada, mas hoje em dia, além de ultrapassada, é crime. A homofobia no futebol é algo que está sendo cada vez mais combatida, mas nem sempre foi assim.

Revelado pelo Norwich City, Justin Fashanu foi convocado para a Seleção Sub-20 da Inglaterra e chegou a valer 1 milhão de libras. O jogador foi o primeiro e único a se revelar gay publicamente no Campeonato Inglês. Isso, ainda na década de 1990. Todavia, a vida já se revelaria muito difícil para ele e seu irmão antes mesmo da declaração de Justin. Filhos de um nigeriano e uma guianense, Justinus e Jhon nasceram em Hackney, um dos lugares mais pobres e violentos de Londres. Foram rejeitados pelo pai antes mesmo de nascerem, sendo depois, abandonados pela mãe.

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Em 2020, O Hall da Fama do Museu do Futebol Nacional, na Inglaterra, adotou Justin Fashanu como novo membro. A data escolhida foi dia 19 de fevereiro, aniversário do jogador, que completaria 59 anos se vivo estivesse.

“Jogos Proibidos”

Irmãos John e Justin Fashanu. Crédito: REX/Shutterstock
Irmãos John e Justin Fashanu. Crédito: REX/Shutterstock

Eternizado na história do esporte, Justin Fashanu virou filme. “Forbidden games” (“Jogos proibidos”) conta a história dos irmãos John e Justin Fashanu, que quebraram tabus na Premier League. Se a homofobia já era insuportável, Justin e seu irmão também sofreram a vida toda com o racismo.

“Se você visse um cara negro era uma foto do Michael Jackson em algum lugar, ou talvez, só talvez, se tivesse sorte, de Muhammad Ali… Eles foram os únicos negros que vi na vida até eu fazer uns 18, 19 anos”. – John Fashanu, em entrevista ao jornal The Guardian.

Como sempre, o futebol foi o meio encontrado pelos jovens para alcançarem algum sucesso na vida. Um esporte tão socializador e ao mesmo tempo, preconceituoso. Da mesma forma que ele consegue incluir, tirando pessoas da pobreza e do esquecimento, o público-alvo que o consome e o dirige, nunca foi acolhedor.

Por isso, ser o primeiro jogador a se declarar gay publicamente, sempre foi um desafio. Para John, essa e outras razões, como a própria vergonha de acharem que por ter um irmão gay, ele também seria confundido como gay, fizeram John tomar uma atitude desesperada.

“Te dou 100 mil libras se você ficar calado”, relembrou o ex-atacante John.

Justin Fashanu aceitou o dinheiro, mas se declarou gay da mesma forma. Todavia, a pressão exercida na vida do atleta foi demais para ele, que nunca mais conseguiu lidar com isso. Aos poucos, a discriminação tomou rumos cada vez mais pesados, sendo inclusive, acusado de assédio sexual no estado de Maryland, onde atos homoafetivos eram ilegais na época.

Justin Fashanu: o trágico fim de um começo

Irmãos Fashanu. Crédito: The Forbidden Games: The Justin Fashanu Story.
Justin ao lado de John e uma pequena sobrinha. Crédito: The Forbidden Games: The Justin Fashanu Story.

Negando todas as acusações, Justin teve prisão decretada nos Estados Unidos, contudo, não admitia ser preso. Saiu do estado americano e voltou para a Inglaterra. Logo após retornar para seu país de origem, foi encontrado morto dentro de sua casa. As pressões que viraram acusações, fizeram o atleta desistir de continuar a vida. Sua carreira foi destruída pela homofobia, e sua vida cessada.

O dia 2 de maio de 1998 marcou um triste fim, entretanto, sinalizou um assunto importante a ser debatido. De lá para cá, outros atletas começaram a se assumir publicamente, ainda que bem pouco. Inclusive, Robbie Rogers, jovem atleta revelado na cidade de Maryland – cidade pivô da acusação contra Fashanu – também se revelou gay. Felizmente, os tempos são outros, ainda não como deveria ser, mas sem incriminar gêneros.

Portanto, Justin foi extremamente importante. Sua coragem de se revelar como nunca antes feito por ninguém, entrou para a história. Mesmo ainda sendo possível ouvir gritos de “bicha” nos estádios, os debates vêm aumentando. Ainda não temos jogadores se revelando normalmente, mas ações sociais têm ajudado a manter pelo menos o respeito dentro do esporte.

Que Justin Fashanu sirva de inspiração, que o esporte acolha e a sociedade evolua.

Daniel Dutra

Jornalista em formação e apaixonado por esportes. Juntei essas duas paixões para produzir conteúdo e valorizar a comunicação criando um portal para levar informação e gerar oportunidades.
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