Apoio de Flamengo e Vasco a carta da FERJ é desumano.
Futebol, Futebol Nacional

A carta da FERJ entre o desespero e a desumanidade

Daniel Dutra
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Além das discussões sobre o começo do Campeonato Brasileiro, algumas federações discutem a continuidade dos campeonatos estaduais. No Rio de Janeiro não é diferente, aliás, é um dos Estados que mais tentam retornar aos jogos. A carta da FERJ, publicada no dia 07 de maio, trás um misto de desespero, desumanidade e esperança.


Com a paralisação do futebol, os clubes pequenos que dependem dos campeonatos estaduais sofreram um grande impacto. Alguns já até demitiram todo o elenco e se contentaram com a realidade, como o Afogados, que eliminou o Atlético Mineiro da Copa do Brasil. Contudo, outros times tentam surfar na insistência de gigantes pela volta do futebol.

No Rio de Janeiro, uma carta da FERJ (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro) conta com o apoio de alguns clubes para pedir o retorno do campeonato local. Na declaração, citam a rigorosa vigilância que farão e o desemprego gerado pela paralisação. O Presidente da República, Jair Bolsonaro, chegou a sugerir que o Campeonato Carioca fosse disputado em Brasília.

Em uma discussão que o jornalista Diogo Dantas, do jornal O Globo, definiu como guerra entre: Bolsonaro, Flamengo e FERJ x CBF, governos, Botafogo e Fluminense; o Vasco aparentemente tinha ficado de fora. Entretanto, diferente do que a grande maioria pensou, a diretoria do clube não ficou em cima do muro. Ao divulgar a assinatura dos clubes que compactuaram com a carta da FERJ que pede a volta do estadual, o Vasco se juntou ao rival rubro-negro.

Assim caminha a humanidade

Definir o Vasco como uma surpresa negativa talvez não seja o ideal, mas até então, não tinha revelado tal atitude. Diferente dele, o rival Flamengo já mostrou diversos posicionamentos horríveis comandado por sua diretoria. Inclusive, para tentar manter uma boa imagem das instituições – o que as próprias diretorias não fazem – e tentar respeitar os torcedores mais conscientes dessas equipes, usaremos o termo diretoria antes do nome do clube.

No mesmo dia em que a carta da FERJ foi publicada, o Flamengo emitiu uma nota dizendo que, dos 293 exames feitos no clube, 38 testaram positivos, ou seja, 13% do total. Entre eles, 3 jogadores com nomes não revelados. Ainda assim, a diretoria continua planejando a volta aos treinos no Centro de Treinamento e assinou a carta para voltar a jogar o estadual.

Apenas com os dados acima, é possível repudiar a atitude da diretoria do Flamengo. Todavia, outros episódios agravam ainda mais a desumanidade dela. Poucos dias antes, o Flamengo perdeu seu funcionário mais antigo vítima do coronavírus em um leito de hospital. Jorginho trabalhava há 40 anos no clube e viveu os melhores momentos da história do Flamengo. Para piorar, a mãe do jovem Ronald, contratado recentemente pelo clube, também faleceu vítima da doença. Mesmo assim, a diretoria do Flamengo, liderada pelo Presidente Rodolfo Landim, continua forçando uma volta aos jogos.

Mas se o massagista Jorginho ainda tentou se recuperar no hospital, essa possibilidade pode não existir logo mais. O Rio de Janeiro está com 98% das vagas de UTI ocupadas. Enquanto isso, como lembramos na matéria sobre a utopia de se fazer o Brasileirão em São Paulo (clique aqui para ler), as federações e confederações tentam viabilizar a volta do esporte, fazendo com que ambulâncias fiquem de plantão nos jogos enquanto ocorre uma pandemia.

Sem assinaturas, palavras foram mantidas na carta da FERJ

70 anos do Maracanã. Crédito: Marcelo Theobald/Agência O Globo
Nelson Mufarrej e Mário Bittencourt seguem rígidos na quarentena. Rodolfo Landim e Alexandre Campello tentam retornar aos jogos. Crédito: Marcelo Theobald/Agência O Globo

Em forma de alívio ou esperança, as diretorias de Botafogo e Fluminense mantiveram seus posicionamentos e não assinaram a carta da FERJ. Os clubes são contrários ao retorno dos jogos e estão fazendo home training, com uma preparação toda de casa, respeitando a quarentena que vem sendo sabotada por autoridades públicas. Em declaração sobre o motivo pelo qual não assinou a carta, o Presidente do Botafogo, Nelson Mufarrej, foi cristalino.

É questão de coerência a nosso posicionamento público. Estamos próximos ao pico da pandemia, com o sistema público de saúde perto da asfixia e o que mais se fala é em lockdown. O futebol pode esperar.” – Mufarrej ao globoesporte.com.

Portanto, enquanto o Brasil chega a 10 mil mortes, sendo 1.300 só no Rio de Janeiro, alguns dirigentes com maior lucidez tentam dar o exemplo que deveria ser dado por todos os clubes grandes que honram suas histórias. Contudo, são poucos que dão o exemplo.

O país que não está preparado para combater decentemente a pandemia do novo coronavírus, não pode estar preparado para voltar com os campeonatos de futebol. Se ele foi paralisado quando tínhamos 4 mortes, ele não pode voltar com 10 mil mortes. Não está tudo bem. Por isso, é essencial permanecer focado na saúde pública em detrimento do entretenimento esportivo. Concluindo assim, que por mais amado que seja o esporte, ele não pode ficar acima de vidas. Portanto, que a quarentena seja levada mais a sério.

Daniel Dutra

Jornalista em formação e apaixonado por esportes. Juntei essas duas paixões para produzir conteúdo e valorizar a comunicação criando um portal para levar informação e gerar oportunidades.
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