As Copas que perdemos. Foto: IA
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As Copas que Perdemos: o bairrismo e a Azurra (1930 – 1938) Do primeiro país do futebol ao domínio da Itália; O Brasil como coadjuvante

1930: O BAIRRISMO ENTRA EM CAMPO. E O PRIMEIRO “PAÍS DO FUTEBOL”

A participação brasileira no primeiro Campeonato Mundial – no Uruguai – foi, no mínimo, discreta. Na classificação final, o Brasil ficou apenas com a sexta colocação, muito embora a nossa seleção tenha realizado somente dois jogos. Na estreia, perdemos para a Iugoslávia por 2 a 1 (gol brasileiro marcado por Preguinho) e, já desclassificados, de nada nos adiantou golear a Bolívia por 4 a 0, com dois gols de Preguinho e dois de Moderato, uma semana mais tarde.

Mas não havia mesmo como ter um bom desempenho naquele Mundial. Uma briga entre a CBD (Confederação Brasileira de Desportos), entidade que comandava nosso futebol, e a APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos), impediu que jogadores filiados a clubes de São Paulo fossem convocados. A única exceção foi o meia Araken Patuska, que bateu o pé, se desligou do Santos e fez parte do grupo. Todos os demais atletas pertenciam a equipes do Rio de Janeiro e foram comandados por Píndaro de Carvalho.

O pequeno gigante

O descobrimento da América

Animados com as duas medalhas de ouro obtidas nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1924, e Amsterdã, em 1928, naquela época, como se vê, o Uruguai era uma enorme potência futebolística. Dessa forma, os dirigentes uruguaios aceitaram o desafio de, em apenas dois anos, organizar a primeira Copa do Mundo.

As dificuldades, porém, eram terríveis. O único meio de transporte disponível entre a Europa e a América do Sul era o navio. E uma viagem entre o Velho Continente e o Novo Mundo demorava cerca de 30 dias! Muitos países se recusaram a participar também por conta da queda da bolsa de Nova York em 1929. Portanto, não haviam condições de custear às viagens. E mais: o Uruguai não possuía um estádio que pudesse comportar o público que, certamente, compareceria em massa.

Para que estes dois entraves fossem resolvidos, o governo local teve de provar sua força e sua coragem. Primeiro, pagou todas as despesas de transporte e de hospedagem para as nações da Europa que aceitaram o desafio de atravessar o oceano para disputar o torneio. Além disso, construiu no peito e na raça o Estádio Centenário. E o mais incrível é que o local só foi concluído já durante o Mundial!

Apesar de todos esses esforços, a verdade é que a Copa do Mundo de 1930 por pouco não se tornou uma Copa Interamericana. Afinal, apenas 13 países a disputaram e, destes, somente quatro eram europeus: Bélgica, Iugoslávia, Romênia e França.

Visivelmente surpresos com o bom futebol que se jogava na América do Sul — muito embora já o tivessem visto de perto em duas Olimpíadas —, belgas, iugoslavos, romenos e franceses não foram páreo para os latinos. Na final, os donos da casa venceram a Argentina por 4 a 2 e faturaram a taça.

Bicampeão olímpico e campeão mundial. Não há como negar: o primeiro “País do Futebol” foi o Uruguai.

1934: O BAIRRISMO SEGUE EM CAMPO. E UMA COPA PARA “IL DUCE”

Seleção Brasileira de 1934 treinando em um NAVIO durante a viagem para a disputa da Copa do Mundo na Itália. Foto: Acervo CBF
Seleção Brasileira de 1934 treinando em um navio durante a viagem para a disputa da Copa do Mundo na Itália. Foto: Acervo CBF

A confusão entre a CBD e a APEA continuava. Já naquela época os paulistas acusavam a entidade de proteger e beneficiar o futebol carioca, e por isso apenas quatro atletas de São Paulo estiveram na Itália: Silvio Hoffmann, Waldemar de Brito, Armandinho e Luizinho Mesquita, todos do São Paulo da Floresta.

O principal motivo da briga, porém, era outro: os paulistas queriam criar a FBF – Federação Brasileira de Futebol e, obviamente, tomar o poder. Em campo, a campanha foi ainda pior do que a de 1930, com a nossa Seleção jogando e perdendo a única partida que fez: 3 a 1 para a Espanha.

E surge a Azzurra:

A segunda Copa do Mundo foi amplamente dominada por anseios políticos, aliás, nada louváveis. Governada pelo ditador fascista Benito Amilcare Andrea Mussolini, a Itália foi o país-sede e, claro, entrou em campo com toda a obrigação de vencer o torneio. Afinal, uma derrota não seria nada boa para “Il Duce”, como era conhecido o grande líder do país.

Um dos pontos, senão o principal que mais ajudaram os italianos a chegarem ao seu primeiro título mundial, foi a desistência do Uruguai. Embora detentores da taça, os uruguaios não se beneficiaram da vaga garantida por antecipação, em represália à pequena participação de nações europeias na Copa do Mundo que haviam realizado quatro anos antes. Mesmo assim, pela primeira vez atingiu-se o número de 16 países participantes. Se o primeiro torneio foi praticamente latino, o segundo foi quase todo europeu, já que apenas quatro nações não eram do Velho Continente Estados Unidos, Brasil, Argentina e Egito.

A grande final reuniu Itália e Tchecoslováquia e terminou com a vitória da Azzurra por 2 a 1. Na comemoração do título e também em todas as vezes que entraram em campo, os jogadores italianos se dirigiam às tribunas e saudavam o tirano Mussolini com o braço direito erguido em diagonal, na conhecida saudação do fascismo.

1938: DIAMANTE NEGRO, VERDE E AMARELO. E O BI DA ITÁLIA

Leônidas pelo Bonsucesso.

Enfim nossa Seleção fez um papel condizente com o amor que seu povo nutria pelo futebol. O técnico Adhemar Pimenta foi o primeiro a poder convocar quem bem quisesse, já que a paz havia sido selada entre APEA e CBD.

Disputada em sistema eliminatório desde sua primeira fase, vencemos o primeiro jogo, sobre a Polônia, por um placar inesquecível: 6 a 5! Após empate por 4 a 4 no tempo normal, a partida foi decidida na prorrogação quando o Brasil venceu por 2 a 1. Nesse jogo também ocorreu o famoso “pé descalço” do Diamante negro, quando no meio do jogo, a chuteira de Leônidas arrebentou por causa da lama, devido às fortes chuvas. Leônidas marcou um gol descalço, de bico, na lama mesmo (dizem que foi o gol do 4 a 4). Só depois parou para calçar uma chuteira reserva que lhe trouxeram. Somente neste jogo, Leônidas marcou 4 dos 8 gols que fez naquela Copa. Nas quartas de final, foram necessários dois confrontos contra os tchecos: no primeiro, empate por 1 a 1, e no segundo, uma vitória por 2 a 1 nos deu a vaga nas semifinais.

Foi então que, apesar do ótimo futebol, a Seleção Brasileira não conseguiu se impor à Itália, que venceu por 2 a 1. O consolo foi tentar o terceiro lugar, o qual conseguimos ao derrotar a Suécia por 4 a 2.

Azul é a cor mais quente:

Aproveitando-se do bom momento por que passavam seus principais clubes, a Itália manteve o título obtido quatro anos antes. As maiores ausências do Mundial da França, o terceiro, foram a Espanha, já envolta na Guerra Civil (1936-39), e a Áustria, então anexada pela Alemanha nazista de Adolf Hitler. Mesmo assim, quatro austríacos foram convocados e puderam disputar o torneio pela seleção alemã.

Leia mais:

Em campo, uma competição de baixo nível técnico, cuja final reuniu italianos e húngaros, e terminou com uma bela vitória por 4 a 2. Contudo, o maior destaque daquele Mundial foi mesmo um brasileiro: Leônidas da Silva, apelidado de “Diamante Negro”, artilheiro com oito gols.

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