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Alegria do povo. Anjo das pernas tortas. A história de Garrincha não se resume ao gênio que foi dentro de campo. Mesmo assim, não houve João que parasse o craque. Nem em campo, nem fora dele. Nem mesmo a ditadura militar brasileira foi capaz de atingi-lo.
Em 1960, o Brasil vivia sua última disputa eleitoral antes da ditadura militar que assaltou o país por décadas. Durante as eleições, presidente e vice-presidente eram eleitos de forma separada. No resultado final, Jânio Quadros e João Goulart, o Jango, foram os eleitos. Entre as características que marcaram o ano eleitoral, estava o uso dos históricos jingles: “Na hora de votar eu vou jangar / Eu vou jangar / É Jango, é Jango / Para vice-presidente, nossa gente vai jangar / É Jango, é Jango / É o Jango Goulart”.
Entre as diversas vozes que replicavam esse jingle, estava Manoel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha. Na época, o craque brasileiro já era destaque do Botafogo e da Seleção Brasileira, que conquistou a Copa do Mundo de 1958, e seria bicampeã em 1962. Outro fato que contribuiu para Garrincha cantarolar e participar de comícios de João Goulart, foi Elza Soares, com quem se relacionou durante sua vida. Elza, então com 23 anos, era uma das vozes que gravaram o jingle do Jango.
Elza Soares também foi convidada para ser a madrinha da Seleção Brasileira e acompanhar o Brasil no Chile, sede da Copa do Mundo de 1962. Entretanto, o romance já acontecia “clandestinamente” desde as eleições. O caso só não se tornou público imediatamente por causa de Garrincha, que era casado na época. Ainda assim, para muitas pessoas, a presença de Elza na concentração ajudou o camisa 7 a se manter concentrado no futebol. Por isso, foi justamente escolhido como o craque da Copa de 1962.
Ditadura militar e a caça as bruxas

Após o golpe militar de 31 de março de 1964, iniciou-se no Brasil, uma “caça as bruxas”. Atitude que levou os militares a perseguirem supostos comunistas ou quem de alguma forma simpatizava com eles. Como sabemos, durante muitos anos essa perseguição provocou desaparecimentos e até a morte de diversas pessoas. Enquanto isso, a carreira de Mané Garrincha começava a declinar. O álcool passou a consumir o jogador e, com Elza fazendo diversos shows, Mané começou a ser sustentado pela cantora.
Muito politizada, a diva que sustentava o Mané que cantarolava Jango, tornou-se uma das pessoas perseguidas pela ditadura militar. A primeira grande ameaça, aconteceu no dia 20 de junho de 1964. Segundo relato de Ruy Castro, biógrafo de Garrincha, o casal teve sua casa invadida pelos militares que os ameaçaram.
“Os homens que invadiram a casa de Garrincha e Elza podiam pertencer a qualquer um desses grupos (exército e marinha), mas não deixaram registro escrito em nenhum órgão daquela época. E também não apresentaram cartões de visita (…) Na casa estavam Garrincha, Elza, dona Rosária, e três filhos de Elza: Carlinhos, Dilma e Gilson. Os homens os puseram nus contra a parede da sala enquanto reviravam a casa pelo avesso. Não disseram se estavam procurando alguém ou alguma coisa, mas, no meio da confusão, Elza julgou ouvir várias vezes o nome de Jango. Não podiam estar procurando o presidente deposto – este já estava posto em sossego desde o segundo dia do golpe, numa de suas fazendas no Uruguai (…)
Aparentemente satisfeitos com o estrago, os sujeitos foram embora. Não levaram nada. Mas, para provar que não estavam brincando, um deles, antes de sair, trouxe a gaiola com o mainá para a sala. Abriu a portinhola e tirou o mainá lá de dentro. Depois de exibi-lo para Garrincha e os outros, torceu-lhe o pescoço. Atirou-o morto no chão e saíram (…)Dois dias depois os jornais deram a notícia, mas convenientemente maquiada: a casa de Garrincha e Elza fora arrombada enquanto eles dormiam. Os ladrões haviam matado o pássaro que ele ganhara de Lacerda. Os homens teriam entrado e saído em silêncio, que só de manhã os donos da casa viram o que acontecera (…) Elza queria evitar que a notícia ganhasse conotação política. Garrincha tentou minimizar a história.”
O João que quase parou Garrincha

João foi o apelido dado para todos aqueles que tentaram parar Garrincha em campo e acabaram sendo driblados. Garrincha driblou centenas deles. Contudo, não esperava que precisaria um dia, driblar outros Joãos. Esses, armados e vestindo fardas militares. Garrincha e Elza saíram do povo. Alegravam o povo. Faziam campanha para quem se dizia do povo. Motivo suficiente para a ditadura militar – financiada pela burguesia e pelos Estados Unidos – odiarem esses personagens icônicos da história do Brasil.
No final da década de 60, Garrincha partiu com Elza rumo a Itália. Em 1969, precisaram se mudar para Roma. Pouco antes disso, receberam diversas cartas e telefonemas anônimos em tons de ameça. Entretanto, o estopim foi quando eles tiveram sua casa metralhada pelos militares. No momento do ataque, Elza e Garrincha estavam dentro da residência.
“Nossa casa foi metralhada e tivemos 24 horas para deixar o país. Fiquei marcada porque participei de um show do Geraldo Vandré, que era visado por ser um artista de esquerda. Eu morava no Jardim Botânico e brincava com as crianças na rua. Depois, entramos e começamos a ouvir um barulho de tiroteio. Minha casa foi toda baleada. Fiquei completamente apavorada por causa dos filhos, das crianças. Eu tinha um piano na sala e o piano foi aberto no meio” – Elza Soares.
Adeus, Brasil
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Em 1966, a seleção brasileira dava fim a sequência de dois títulos mundiais consecutivos. Todavia, Garrincha assistiu a seleção em um quarto de hotel em Roma. Justamente, na terra dos derrotados. Exilado, o ponta direita ainda ficaria meses na Europa, onde Elza fez uma série de shows. Mané não entendia o motivo de ter que viver fora de seu país. Por isso, limitou-se a ficar bebendo nos quartos de hotéis por onde passava.
Quando voltou ao Brasil, se despediu dos gramados oficialmente, em 19 de dezembro de 1973. A renda do jogo foi toda revertida para ele, que passava por dificuldades financeiras. Foram cerca de 160 mil dólares arrecadados que ajudaram o jogador e sua família. Entretanto, dez anos depois, aos 49 anos, Garrincha viria a falecer pobre em decorrência do alcoolismo. O dia 20 de janeiro de 1983, marcou o fim de um gênio que se tornou santo.
Para sempre Mané. Viva Garrincha! Viva a alegria do povo!






