O inesquecível Ferenc Puskas (D), o Major Galopante, diante da Alemanha de Fritz Walter na final da Copa (Foto: Agência AP)
Futebol, Futebol de Seleções

As Copas que perdemos: da Alemanha para a Inglaterra Novo episódio da série relembra as Copas do Mundo de 1954 e 1966; o antes e o depois das duas primeiras conquistas brasileiras

1954: O “comunismo” derruba o Brasil

E surge a “amarelinha”

Com apenas quatro remanescentes da tragédia de 50 — o goleiro Castilho, o lateral-esquerdo Nilton Santos, o volante Bauer e o ponta-esquerda Rodrigues Tatu — e uma nova camisa (a amarela substituiu a branca), o Brasil começou a Copa do Mundo da Suíça goleando o México por 5 a 0 e empatando com a Iugoslávia em 1 a 1, garantindo assim uma vaga nas quartas de final. O problema é que tivemos pela frente justamente o melhor time do mundo na época: a seleção da Hungria.

Mesmo sem contar com Puskás, machucado, os europeus não encontraram muitas dificuldades para vencer por 4 a 2, e mandaram os brasileiros de volta para casa. O jogo, por sinal, foi muito conturbado, com três expulsões (Nilton Santos e Humberto Tozzi pelo Brasil e Bozsik pela Hungria) e invasão de campo por parte do árbitro brasileiro Mário Vianna, que acusou a arbitragem de ser “tendenciosa ao comunismo”, regime político que reinava em todo o Leste Europeu na ocasião.

Detalhe: o árbitro daquele jogo era Arthur Ellis, da Inglaterra, país que jamais foi comunista.

A melhor foi vice e o Milagre de Berna:

Algo bem parecido com o que aconteceu com o Brasil em 1950 se deu quatro anos mais tarde com a Hungria, a seleção que apresentava o melhor futebol. No entanto, a campeã foi a pragmática e pouco talentosa Alemanha. Por quê? Porque os alemães se utilizaram de uma estratégia muito simples: quando enfrentaram os húngaros na primeira fase, entraram em campo com apenas quatro titulares e facilitaram a vida para o adversário. O placar final — 8 a 3 para a Hungria — resume bem o que foi o jogo.

Por isso, na grande decisão, Puskás e seus companheiros tinham a mais absoluta certeza de que venceriam, e sem dificuldades. Embora tenham aberto 2 a 0 com apenas oito minutos de jogo, os húngaros cederam o empate ainda no primeiro tempo e levaram o terceiro gol aos 34 minutos da etapa final. Foi uma das mais sensacionais viradas da história das Copas.

Alemanha supreende a Hungria e o mundo e fatura primeira Copa em 1954 por 3 a 2, dois gols de Rahn (Foto: Getty Images)
Alemanha supreende a Hungria e o mundo e fatura primeira Copa em 1954 por 3 a 2, dois gols de Rahn (Foto: Getty Images)

1966: Craques demais, organização de menos

E o árbitro define o campeão

Após faturar o bicampeonato mundial nas duas edições anteriores, o Brasil era mais do que favorito à conquista do tri em 1966. Todos apostavam que seria algo fácil para a Seleção Brasileira.

Mas as dificuldades começaram já no sorteio. Embora cabeça-de-chave, demos azar, e duas fortíssimas equipes europeias caíram em nosso grupo: Hungria e Portugal. Moleza mesmo só outra seleção do Velho Continente: a Bulgária. Não à toa, os búlgaros foram vencidos na estreia sem maiores dificuldades: 2 a 0.

Contudo, causaram-nos um grande desfalque: bateram tanto em Pelé, que o impediram de estar em campo diante da Hungria, no segundo jogo. Resultado: 3 a 1 para eles, fora o baile.

O terceiro e último jogo da primeira fase era decisivo. Precisaríamos vencer os portugueses e, ainda por cima, torcer para que os húngaros, no dia seguinte, não derrotassem os já eliminados búlgaros. Pelé estava de volta, mas foi caçado o tempo todo e não teve como continuar na partida — saiu carregado de campo e com uma séria contusão no tornozelo. Sem o gênio, o Brasil perdeu por 3 a 1, foi eliminado ainda na primeira fase, terminando aquela Copa em 11º lugar, colocação pra lá de humilhante, em se tratando de um bicampeão mundial.

Capitão inglês Bobby Moore carrega a Jules Rimet depois da vitória na final AP
Capitão inglês Bobby Moore carrega a Jules Rimet depois da vitória na final AP
Ah, se já existisse o VAR:

Durante muito tempo, a Inglaterra se julgou tão superior aos demais concorrentes que sequer aceitou disputar as Copas do Mundo. Sua estreia se deu apenas em 1950, e 16 anos mais tarde coube à terra da Rainha Elizabeth a honra de sediar o 8º Mundial da história.

Com méritos, os ingleses — capitaneados por Bobby Charlton e Bobby Moore — chegaram à grande decisão diante dos alemães. Após um empate em 2 a 2 no tempo normal, o “English Team” venceu a prorrogação por 2 a 0, mas um erro do árbitro suíço Gottfried Dienst os ajudou: o primeiro dos dois gols marcados no tempo adicional não aconteceu, pois a bola não ultrapassou totalmente a linha fatal após se chocar com o travessão.

O engano nunca admitido:

Durante os quase quatro meses que antecederam a Copa do Mundo de 1966, a CBD (Confederação Brasileira de Desportos), atual CBF, chegou a montar quatro grupos diferentes de jogadores para os treinamentos. Ao lado de nomes gigantes como Pelé e Garrincha, apareciam atletas pouco conhecidos do grande público, muitos deles chamados mais por interesses políticos do que por critérios técnicos. Também havia casos de jogadores famosos, mas já em fase final de carreira, convocados muito mais para agradar torcedores nas cidades por onde a Seleção passava do que por real utilidade dentro de campo.

No meio de tanta interferência, o técnico brasileiro Vicente Feola teve dificuldade para estabelecer uma base. Mesmo com um longo período de preparação, o técnico chegou à Inglaterra sem uma escalação definida e sem convicção sobre qual era o melhor time. É nesse contexto que surge a figura do zagueiro Ditão. Ou melhor, dos dois zagueiros Ditão.

Em uma das listas divulgadas pela CBD, apareceu o nome de Gilberto Freitas Nascimento, o Ditão, zagueiro do Flamengo. Só que o jogador que deveria ter sido chamado era outro Ditão: Geraldo Freitas Nascimento, seu irmão mais velho, que havia se destacado na Portuguesa e depois foi contratado pelo Corinthians. Só mais tarde, quando começaram os cortes naturais da preparação e o grupo foi sendo enxugado, o Ditão acabou saindo junto com outros jogadores. Ninguém assumiu o equívoco oficialmente, com a história vindo a público anos depois em publicações jornalísticas. Na época, a seleção seguiu tocando o processo como se nada tivesse acontecido. Para vermos que a bagunça na CBF não é só de hoje.

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