Entrevistas, Futebol Internacional

Lesões no PSG expõem desafios da recuperação e do retorno ao futebol

Após novos desfalques no clube francês, fisioterapeuta explica como o desgaste, a reabilitação e a pressão por resultados interferem na volta aos gramados

O Paris Saint-Germain iniciou novembro sem quatro titulares por lesão: Kvaratskhelia, Dembélé, Marquinhos e Nuno Mendes. Entre eles, o caso mais grave é o do atacante georgiano, que rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho direito contra o Barcelona, em 20 de outubro, pela Champions League. Após passar por cirurgia no hospital Aspetar, em Doha, o jogador inicia a reabilitação sem prazo de retorno anunciado pelo clube.

Na mesma partida, Dembélé e Marquinhos sofreram lesões na coxa e se juntaram a Nuno Mendes, que havia se machucado em 17 de outubro. Os três permaneciam em tratamento antes do confronto com o Le Havre, disputado na sexta-feira (30). Depois desse jogo, não foram registradas novas lesões, segundo informações do L’Équipe reproduzidas pelo Canal Supporters.

As ausências obrigam Luis Enrique a reorganizar a equipe enquanto os jogadores cumprem suas etapas de recuperação. A expectativa pela volta, no entanto, depende de avaliações que vão além do desaparecimento da dor ou da retomada das corridas no treinamento.

 

Segundo o fisioterapeuta Rodrigo Petrônio Delgado, formado pela Universidade de Passo Fundo (UPF), com especialização em Fisioterapia Ortopédica e Traumatológica e formação em Osteopatia, o atleta precisa recuperar condições de responder aos esforços de uma partida. Isso inclui frear, mudar de direção, disputar a bola e repetir essas ações em alta intensidade.

“Um atleta pode estar clinicamente bem, mas ainda não estar pronto para executar movimentos de alta velocidade ou competir sob pressão”, explica.

O que os números mostram

Os problemas físicos atingiram pelo menos nove jogadores do PSG entre agosto e o fim de outubro de 2026, conforme os registros disponíveis na base BeSoccer. Além dos quatro titulares afastados no início de novembro, aparecem Maghnes Akliouche, Ferran Torres, Senny Mayulu, Warren Zaïre-Emery e Achraf Hakimi. O recorte reúne lesões e desconfortos físicos registrados pela plataforma, sem representar um balanço médico completo do clube.

Na temporada anterior, o PSG também enfrentou dificuldades nos primeiros meses. Em reportagem publicada em 5 de novembro de 2025, o L’Équipe informou que nove jogadores haviam aparecido nos boletins médicos do clube desde agosto. No dia seguinte, a Associated Press registrou o mesmo número de atletas lesionados e destacou que Dembélé e Désiré Doué já tinham se machucado duas vezes naquele período.

Os dados mostram que o problema se repetiu, mas exigem cuidado na comparação: os nove jogadores de 2025/26 correspondem ao início daquela temporada, enquanto o levantamento de 2026/27 reúne registros de outra base, com critérios diferentes. Nenhum dos números deve ser apresentado como total de lesões de uma temporada completa.

Fora de Paris, os afastamentos também preocupam. Na temporada 2024/25, o índice de lesões da Howden contabilizou 4.456 ocorrências nos clubes das primeiras divisões de Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália e França. Foi o segundo maior registro nas cinco temporadas analisadas. A contagem é de lesões, portanto um mesmo jogador pode aparecer mais de uma vez.

Embora os levantamentos mostrem a dimensão do problema, cada recuperação segue um caminho próprio. Delgado explica que o tratamento começa pela identificação da lesão, da perda de força, do inchaço e das limitações de movimento. Essas informações ajudam a definir os cuidados necessários e a acompanhar a evolução do atleta.

Inicialmente, a prioridade é controlar os sintomas e proteger a região lesionada. Conforme o quadro melhora, o jogador avança para exercícios de mobilidade e força, até conseguir realizar atividades de maior exigência.

Essa progressão leva aos movimentos específicos do futebol, como acelerações, frenagens, saltos e chutes. Nessa etapa, a posição também orienta a preparação, já que goleiros, defensores, meio-campistas e atacantes enfrentam exigências diferentes durante o jogo.

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Voltar a treinar é diferente de voltar a competir

A execução desses movimentos, porém, ainda precisa ser acompanhada de perto. Antes da liberação, os profissionais avaliam se o jogador suporta treinos mais intensos sem dor ou inchaço e se mantém o controle do corpo à medida que o esforço aumenta.

Para acompanhar essa evolução, são feitos testes de força, movimento e ações próprias da modalidade. Quando existem registros anteriores à lesão, a comparação ajuda a verificar o quanto o atleta recuperou de sua condição física.

A avaliação também deve considerar a confiança. Mesmo com bons resultados nos testes, o jogador pode ter receio de apoiar a perna, entrar em uma dividida ou mudar de direção. Esse medo interfere nos movimentos e precisa ser observado durante a preparação.

Por isso, Delgado trata a retomada como um processo gradual: primeiro, o atleta volta a participar das atividades; depois, retorna às competições e busca recuperar o desempenho anterior. Estar disponível para uma partida não significa, necessariamente, ter retomado o mesmo rendimento.

Quando essa progressão é acelerada, podem surgir dor, inchaço, queda de desempenho e sobrecarga em outras partes do corpo. Em vez de resolver a ausência, o retorno antecipado pode provocar um novo afastamento.

“A pressa pode criar um ciclo de retorno, piora dos sintomas e novo afastamento”, alerta.

Onde o calendário entra nessa conta?

O risco exige atenção ainda maior em períodos de jogos próximos e viagens frequentes, quando diminui o tempo disponível para descanso. Segundo Delgado, o calendário intenso pode contribuir para as lesões, embora não deva ser considerado sua única causa.

Para avaliar o desgaste, é necessário observar também os minutos em campo, a qualidade do sono, o condicionamento e o histórico de cada jogador. O esforço acumulado nos treinos e nas partidas completa essa análise e ajuda a orientar mudanças na rotina.

A partir dessas informações, a comissão pode reduzir a intensidade dos exercícios, ampliar o período de recuperação ou recorrer ao rodízio do elenco. O planejamento deve ser individualizado, pois atletas submetidos à mesma sequência de jogos podem apresentar respostas diferentes.

Esse acompanhamento também orienta a volta de quem está lesionado. A liberação deve ser discutida entre médicos, fisioterapeutas, preparadores físicos, comissão técnica e jogador, considerando sua evolução e as exigências da competição.

Mesmo após o retorno, o trabalho continua. A reação do atleta aos treinos e às partidas indica se é possível aumentar o esforço ou se há necessidade de ajustes, independentemente da importância dos próximos compromissos.

“A segurança e a saúde do atleta devem prevalecer sobre a pressão pelo retorno”, afirma Delgado.

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