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Grêmio pede transição no STF para o fim dos patrocínios de bets após calote e contrato suspenso

Clube trocou o banco por um contrato de R$ 50 milhões anuais com a Alfa Bet, rompeu após três parcelas em atraso e viu o acordo com a Pitaco ser suspenso antes de a marca estrear no uniforme

Quando Eduardo Schumacher foi ao Supremo Tribunal Federal pedir tempo para o futebol se adaptar ao fim dos patrocínios de apostas, o Grêmio já tinha voltado com o patrocínio máster do Banrisul. O banco gaúcho reassumiu o centro da camisa nas seis rodadas finais do Brasileirão, menos de dois anos depois de perder o espaço para uma casa de apostas que prometia pagar R$ 20 milhões a mais por temporada. A troca terminou com três parcelas em atraso, um acordo de R$ 12 milhões para recuperar os valores e meses sem um patrocinador máster regular.

O que o Grêmio defendeu no Supremo

Vice-presidente do Conselho de Administração do Grêmio, Schumacher representou o clube na audiência pública de terça-feira (3), em Brasília. Ele defendeu a proibição dos cassinos on-line, mas pediu um prazo para a retirada dos patrocínios de apostas. Argumentou que a cota máster ajuda a pagar salários de atletas e funcionários, manter as categorias de base e o futebol feminino e cumprir compromissos com credores.

“O Grêmio não nega danos ou defende as casas de aposta”, afirmou Schumacher. Ao falar da saída do setor, resumiu o pedido do clube em quatro palavras: “tempo para se adaptar”.

Convocada pelo ministro Luiz Fux, a audiência discutiu a Medida Provisória 1.394/2026, que proibiu a exploração e a publicidade das apostas de quota fixa. A Associação Nacional de Jogos e Loterias questiona a medida no STF. Na mesma audiência, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, defendeu a manutenção da proibição e citou o endividamento das famílias, os casos de transtorno do jogo e o impacto sobre o SUS.

O certo pelo duvidoso: o que levou o Grêmio a trocar de patrocinador máster?

Parceiro do Grêmio desde 2001, o Banrisul pagava cerca de R$ 30 milhões por ano pelo principal espaço do uniforme. Ao fim de 2024, a direção gremista avaliava que a cota valia mais. A Alfa Bet ofereceu R$ 50 milhões por temporada, um aumento de cerca de 67%. Em fevereiro de 2025, Grêmio e Inter anunciaram a casa de apostas como patrocinadora máster por três anos. Para cada clube, o contrato previa cerca de R$ 150 milhões ao longo do vínculo.

A mudança tirou o banco do centro da camisa. Na época, a imprensa divulgou que o Banrisul havia negociado uma cota secundária, nas costas, por cerca de R$ 18 milhões. O Grêmio afirma que a parceria com o banco seguiu em diferentes formatos. Em 28 de outubro de 2026, com o contrato da Pitaco suspenso, o clube oficializou a volta do Banrisul à frente do uniforme até o fim do Brasileirão. O valor do novo acerto não foi divulgado.

Do calote a defesa no Supremo

Contrato com a Alfa foi encerrado em dezembro de 2025 (foto: Lucas Uebel | Grêmio | divulgação)

Os pagamentos da Alfa começaram a atrasar no segundo semestre de 2025. Quando o Grêmio pediu a rescisão, em dezembro, havia três parcelas em aberto, que somavam cerca de R$ 12 milhões, segundo o ge. No fim de março de 2026, o clube acertou com a empresa o pagamento da dívida em oito parcelas a partir de abril. Em 13 de junho, o ge informou que a Alfa ainda não havia pago nenhuma delas. Em setembro, a cobertura ainda citava os R$ 12 milhões como devidos.

No mesmo mês, o clube também completou seis meses sem um patrocinador máster regular. O ge calculou que o espaço poderia ter rendido R$ 24,9 milhões nesse intervalo, tomando como referência o valor mensal previsto no contrato da Alfa. A estimativa mede a receita que o Grêmio poderia ter obtido com a camisa ocupada por aquele preço. Os R$ 12 milhões renegociados correspondem às parcelas que já haviam vencido.

O que ocorreu em cada contrato?

• Esportes da Sorte: a estreia aconteceu em março de 2023 na parte superior do peito, quando o Banrisul ainda era o máster. A GZH estimou o contrato de três anos em R$ 50 milhões. Em fevereiro de 2025, o Grêmio anunciou o fim da parceria e agradeceu à empresa pelos projetos realizados. As fontes consultadas não apontam atraso de pagamentos nesse encerramento.

• Energia Bet: ocupou o centro da camisa nos dois últimos jogos do Brasileirão de 2025. Segundo o Terra, a ação pontual foi de R$ 1 milhão. A cobertura consultada não registra atraso.

• Pitaco: o Tricolor Gaúcho anunciou em 23 de setembro de 2026 um contrato de três anos, estimado pelo ge em R$ 140 milhões. Dois dias depois, o governo publicou a medida provisória. O acordo foi suspenso por causa da mudança nas regras e a marca jamais estreou no uniforme.

Houve ainda atraso no contrato com a Pix das Estrelas, que previa pelo menos R$ 6 milhões por ano pela parte superior do peito, segundo o ge. A parceria envolvia títulos de capitalização com sorteio. O clube encerrou o vínculo em comum acordo em novembro de 2025, após uma campanha que associava a participação da torcida ao anúncio de um reforço. O prazo divulgado terminou sem o anúncio. Entre as casas de apostas, o caso de inadimplência documentado foi o da Alfa Bet.

O futebol brasileiro irá acabar?

As casas de apostas já apareciam no uniforme antes de assumir o centro da camisa. Em 2022, a MrJack.bet estampava a região dos ombros e a parte de trás do calção. No ano seguinte, entrou a Esportes da Sorte. Nos dois casos, o Banrisul seguia como máster. Os números abaixo reúnem toda a receita publicitária registrada pelo Grêmio em cada período. A cota máster é apenas uma parte dessa conta.

2022: R$ 43,98 milhões de reais

2023: R$ 74,07 milhões de reais 

2024: R$ 65,4 milhões de reais

2025: R$ 107,6 milhões de reais 

1° trimestre de 2026: R$ 15,76 milhões de reais

De 2024 para 2025, a receita publicitária subiu 64,6%. No primeiro trimestre de 2026, caiu 6,5% em relação ao mesmo período de 2025, quando somou R$ 16,85 milhões. O balanço anual agrupa os contratos e pode incluir valores ainda a receber. Por isso, a alta de 2025 mostra quanto o Grêmio registrou na rubrica, mas deixa em aberto quanto de cada patrocinador entrou no caixa.

O argumento de Schumacher sobre salários, base e futebol feminino ajuda a entender o tamanho do problema. São despesas que o Grêmio precisa pagar todo mês, inclusive quando o patrocinador atrasa. Foi o que aconteceu em 2025, antes da medida provisória. Mesmo depois de romper com a Alfa e receber propostas de outros setores, a direção escolheu outra empresa de apostas para a cota principal. Com a suspensão da Pitaco, recorreu ao banco que havia tirado daquele espaço.

Se o futebol tiver um prazo para se adaptar, ele deve servir para retirar a publicidade de apostas das camisas e substituir essa receita. O Grêmio já teve que reorganizar as contas quando uma bet deixou de pagar. Prorrogar a exposição dessas marcas sem reduzir a dependência financeira dos clubes só prolonga um problema que a própria história recente do Tricolor Gaúcho pôs à vista.

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