O Nilton Santos voltou a respirar
Crônicas

O Nilton Santos voltou a respirar

Botafogo sobe na tabela e se afasta do fantasma da zona

Quarta-feira, 19h45. O imponente ônibus do Botafogo ainda nem dobrou a esquina e as ruas já estão pegando fogo. Sinalizadores. Fumaça. Fogos. Milhares de alvinegros cantando o hino do Clube como um grito de guerra

São as Ruas de Fogo. De arrepiar

Dentro do ônibus, jogadores que tinham perdido para o Remo, descobrem que ainda são amados. É o tipo de perdão que só o futebol concede — e só por uma noite

Festa da torcida do Botafogo na entrada dos jogadores no Estádio Nilton Santos. Foto: Vítor Silva/Botafogo
Festa da torcida do Botafogo na entrada dos jogadores no Estádio Nilton Santos. Foto: Vítor Silva/Botafogo

Dentro do estádio, 22 mil fazendo mais festa, mais barulho, incendiando a noite toda

Para um time apenas dois pontos do famigerado Z4, foi incrível de se ver. Mas para quem sabe como o futebol atua na alma e no coração, foi apenas algo corriqueiro

O fantasma do rebaixamento já não assombrava de longe. Havia comprado ingresso a dez reais. Se sentou na Leste, cruzou as pernas e esperou

Do outro lado, o Galo. Aquele Galo daquela tarde do um a menos e do 3–1

Quase dois anos depois, não valia a Glória Eterna. Valia um balão de oxigênio para continuar respirando

Tite veio com 3 zagueiros. Metade da arquibancada coçou a cabeça. A outra metade rezou

O botafoguense não vai ao estádio. Vai ao calvário — e ainda leva a própria vela

Dezoito minutos. Vitinho recebe pela direita. Na arquibancada, alguém pressente e se levanta. Depois a fileira inteira. No bar, o garçom para com a bandeja no ar e gruda os olhos na TV

A zaga mineira espera o cruzamento. Conhece o script de longa data. Mas Vitinho rasga o roteiro e não cruza. Enfia uma bola rasteira, certeira. Lá dentro, invadindo a área, está Edenílson. O ex

Todo ex carrega uma vingança mansa, dessas que não se confessam nem ao padre

Everson sai do gol, abre os braços, tenta tapar o céu com as mãos. A bola olha para ele. Olha para o Edenílson. E escolhe: GOOLLL!!! Fogão 1–0

Edenilson, autor do gol da vitória do Botafogo contra o Atlético Mineiro. Foto: Vitor Silva/Botafogo.
Edenilson, autor do gol da vitória do Botafogo contra o Atlético Mineiro. Foto: Vitor Silva/Botafogo.

Mas alvinegro não chega ao paraíso sem atravessar o purgatório. Está no contrato. Tiquinho explode a bola no travessão, esse velho inimigo íntimo que não permite ganhar em paz

Gabriel Batista voa na bomba de Alexsander e tranca a Estrela Solitária com cadeado

Matheus Martins dá uma caneta em Léo Duarte. Preciado entrega um presente embrulhado em papel de seda. Tiquinho manda para fora. Duas vezes

No Botafogo, gol perdido não é desperdício. É método de tortura

Aos 41 do 2º tempo, Scarpa cruza. Vitão quase toca. Quase. Nesse intervalo de uns três segundos, foram registrados 22 mil infartos

Nos acréscimos, Matheus Martins ainda carimba a trave. Noite de travessão, trave e taquicardia

O time recuou. Então a torcida entrou em campo. Com a voz alta e retumbante

Gabriel Batista reconhece depois da partida, que a torcida foi fundamental. Em campo, ele ouviu e sentiu

Não foi um jogo bonito. Nessa temporada, quem quiser beleza que vá à Vista Chinesa

42 pontos, 11º lugar, 5 de folga. Aquele fantasma sabe que já perdeu a força. Mas já comprou seu ingresso para o próximo jogo. Ele conhece bem: há coisas que só acontecem…

Segue focado, Fogão

Pra cima!

Entra mudo e sai caladoEntra mudo e sai calado
0 0 votos
Article Rating
Inscrever-se
Notificar de
guest

0 Comentários
Mais votado
mais recentes mais antigos