Antes de se tornar o “Galinho de Quintino” e ícone do Flamengo e da Seleção Brasileira, Arthur Antunes Coimbra, o Zico, teve uma formação marcada por valores que iam muito além do futebol. Em depoimento ao CPDOC/FGV, o craque detalhou a influência do ofício de seu pai, a alfaiataria, e a importância da educação formal na trajetória da família Antunes.
Segundo Zico, a observação do trabalho meticuloso do “Velho Antunes” na mesa de corte, conferindo cada detalhe de ternos sob medida, foi fundamental para a construção de sua disciplina dentro de campo. “No futebol é preciso ser assim também”, afirmou, relacionando o detalhismo do corte de tecidos à precisão de passes, cobranças de falta e visão de jogo. Para ele, o rigor da alfaiataria ensinava ética, sacrifício e a necessidade de uma base sólida. Lições que o pai reforçou ao abrir mão de uma carreira promissora como goleiro amador para sustentar a família.
A educação também recebeu destaque no relato. Embora os filhos tenham se tornado atletas de renome, o maior orgulho de Seu Antunes não estava nos gramados, mas nos diplomas universitários que cada um conquistou. Maria José formou-se em Psicologia; Antunes, em Economia; Eduardo em Educação Física; Nando em Direito; enquanto Zico e Tonico seguiram caminhos acadêmicos em Administração e Educação Física. “Quando meu pai faleceu, aos 85 anos, senti que ele partiu com o dever cumprido”, recordou Zico, ressaltando o valor de uma carreira intelectual sólida ao lado do talento esportivo.
Equilíbrio
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Além dos gramados, Zico também atuou como Secretário Nacional de Esportes, buscando modernizar a legislação esportiva e garantir a tramitação do projeto que antecedeu a Lei Pelé, conhecida como “Lei Zico”. Em seu relato, o craque evidencia que seu diferencial não se restringiu ao talento natural, mas foi fruto de uma estrutura familiar que valorizava precisão técnica, educação e visão de longo prazo.
O depoimento revela ainda um retrato familiar em que esporte, estudo e cultura coexistiam em equilíbrio. O pai incentivava o futebol, presenteando os filhos com uniformes do Flamengo e da Seleção, mas cobrava o desempenho escolar; a mãe, Dona Matilde, sonhava com uma formação musical, levando Zico a estudar piano por um ano, inclusive se apresentando na TV Globo, antes de decidir definitivamente pelo futebol.
A trajetória esportiva do craque começou no subúrbio do Rio de Janeiro, em Quintino Bocaiúva, onde jogava peladas e futsal. Aos 13 anos, após ser observado pelo radialista Celso Garcia, integrou as categorias de base do Flamengo, iniciando um caminho que o levaria à Era de Ouro do clube e ao estrelato internacional. Em sua passagem pela Seleção Brasileira, Zico destacou o sonho de vestir a camisa 10 do Flamengo e os desafios impostos pelo ambiente político e esportivo da América do Sul durante a ditadura militar.
O depoimento, realizado em 2012 para o projeto “Futebol, Memória e Patrimônio”, integra o acervo do CPDOC/FGV e oferece uma perspectiva íntima e profunda sobre a vida pessoal e profissional de um dos maiores ídolos do futebol brasileiro.






